domingo, 27 de fevereiro de 2011

Augusta - Bernardo Almeida

Augusta

A avenida é paulista
Mas os pedestres
São de todos os lugares
Cruzam-se, debatem-se e ignoram-se
Em buzinas de sirenes de ambulâncias de polícias
E, do alto, a dupla hélice metálica
Dos helicópteros alternam-se e assistem
Ao drama do cotidiano
Cada vida é uma remessa de jornal encalhado
Um relógio adiantado
Em um braço sempre atrasado
Nas esquinas urbanas, afeto é silêncio
E respeito é indiferença
No escritório, a ansiedade
Espera pelo happy hour do dia
“Talvez amanhã, quem sabe...”
Oitenta leões e uma forca
O dinheiro é o marca-passo
E a apatia é conivente com a bravura
No espaço em que a convivência
É um ato de loucura
Há arte no teto
Um painel em tons de cinza
Anuncia qualquer coisa indefinida
Uma chuva ácida de melancolia cosmopolita
Mas não sobra tempo para detalhes
E cada um é só, mais uma triste interrogação
Que tenta ganhar a vida
Em um dia de um segundo
Numa extraordinária correria comum
Enquanto os monumentos observam estáticos
A genérica beleza da arquitetura humana
Projetada e talhada em concreto e carne
Marcando no mapa as luzes esfumaçadas
De uma ilha de calor carcinogênico
No espetáculo diário dos artistas dos semáforos
E na esmola dada por compensação
O progresso que conheces não tem nome
Malmente aprendeu a ler
Mas é pós-doutor em cálculos de estatística
E cedo ou tarde
Inevitavelmente irá subtrair você

Bernardo Almeida

Bilheteria - Bernardo Almeida

Bilheteria

Ao deixar-me, ainda em chamas
A tua presença não me abandona
E as palavras que proferes, agora saem de mim
Derivam todas da mesma harmoniosa fonte

Perdura em meu corpo a tua saliva
Restos de ti a completar-me
Como as migalhas da minha carne
Que levas em tuas longilíneas unhas

O deleite ainda umedece os lençóis
Emaranhados no palco armado sobre quatro estacas
Em que o teu amor contracenou com o meu
Diante de uma platéia invisível, que calorosamente aplaudia
Enquanto nossos músculos, pulmões e gargantas
Exaustos, agradeciam

Bernardo Almeida

Crença e aparência - Bernardo Almeida

Crença e aparência

Quem crê no amor e nunca chorou
Dificilmente amou
Quem crê no amor e nunca sofreu
Dificilmente amou
Quem crê no amor e nunca perdoou
Dificilmente amou
Mas quem ainda crê no amor?
O amor foi reduzido a desejo
Passageiro, ligeiro
Um sem número de parceiros
Companheirismo é piegas
Amar alguém é tão brega
A sinceridade está de braços cruzados
A cumplicidade tirou férias
E o compromisso se aposentou
Mas quem ainda crê no amor?
Livre de interesses materiais
Repleto de saudades e lembranças
Os corações estão trancados
Protegidos contra danos
Todo mundo é tão sério e prudente
Falta coragem para amar
É mais fácil possuir do que se entregar
Mas quem ainda crê no amor romântico?
O que era sentimento verdadeiro
Não passa hoje de um jogo entre parceiros
A morte já não separa os casais
O amor morre muito antes
O vinho é transformado em água
Sem sabor, gosto ou cheiro
Sem emoções e sem feições
Quem veio ao mundo e nunca amou
Falar sobre a vida não pode
Porque nada sabe
Porque nada aprendeu além de futilidades
Porque nada sentiu além do trivial
Porque nada entendeu além do óbvio
Porque, ainda que vivo, nunca viveu


Bernardo Almeida

Palavra - Bernardo Almeida

Palavra

Uma palavra pode ser proferida
E esquecida com o tempo
Outra pode ser aquecida e sentida
Além da eternidade
Uma palavra pode ser mantida
Pode ser vencida
Pode ser transformada
Pode ser omitida
Pode ser deturpada
Pode ser lembrada
Uma palavra
Afasta o homem da ignorância
Aponta a saída do labirinto
Fantasiosa ou realista
Carrega vida em seu sentido
Uma palavra
Quando lançada
Não tem rumo
Não tem caminho certo
Trilha ao impulso do vento
E na velocidade do pensamento
Segue firme, vaga e veloz
Como uma flecha
Pode destronar uma certeza
E como uma chama
Pode transformar corações em brasa
Uma palavra
Simples e inútil
Pode mudar o mundo
Pode ultrapassar uma crença
Pode desatar nós e preconceitos
Pode vencer uma guerra
Aquela mesma palavra
Esquecida em meio a tantas outras
Na página amarelada de um livro qualquer
Pode ser a salvação
Ou a perdição
Na vida de alguém
Uma simples e imperfeita
Palavra


Bernardo Almeida

domingo, 13 de fevereiro de 2011

Carne, osso e memórias - Bernardo Almeida


(Imagem Galo Imaginário / Autor: Bernardo Almeida)


Carne, osso e memórias - Bernardo Almeida

Diluiu em pecados
O que um dia foi santo
Sacrificado o eterno em prol do agora
Mundano e estreito
Externo e profano
Corpo exposto
Alma fraca
Lágrimas e silêncios
Novos prantos
Gritos de sinceridade
Uma história mal contada
Difícil de decifrar
Um passado de fugas
Um presente omisso
Você não se reconhece
Nem que apodreça em frente ao espelho
Admire suas falhas
Bem de perto, profundamente
Você ainda consegue se questionar sem se sentir vazio?
Anos luz separam você de você mesmo
E não há nada além disso
Carne, osso e memórias

Bernardo Almeida (Achados e Perdidos - 2005)

Devoção - Bernardo Almeida

Devoção

Se com mil toques pudesse agraciar a sua beleza
Se com mil palavras pudesse definir suas curvas
Se com mil passos pudesse percorrer entre seus mistérios
Se entre mil pessoas o seu olhar fosse somente meu
Se com mil orgasmos pudesse presenteá-la
Se de mil paixões pudesse abastar seu peito
Se mil amores eu pudesse renunciar
Se com mil sons, pudesse cantar sua carne
Se ao meu amor terno estivesse tu entregue
Beberia mil jarras do seu sorriso
Fôssemos

Se em mil versos pudesse ler a sua alma
Se em mil encarnações pudesse entregar-lhe a minha
Se com mil destinos tivesse escolha
Minha rota seria seu caminho
Se em mil sonhos, apenas você
Se em mil sensações, suas mãos
Se em mil delírios, seus lábios
Se em mil crenças, devoção a você
Se em mil desejos, suas fantasias a realizar
Se em mil perfumes, seu aroma
Se em mil tentações, a sua presença
Que inebria e irradia vida
Que ilumina e salva
Desperta e liberta
Amém, amém!

Bernardo Almeida (Achados e Perdidos)

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Da vaidade - Bernardo Almeida

Brilhantismo
É um colar de contas
Ridículo
Mas está
Na moda

Bernardo Almeida

Avenue B - Iggy Pop




Rapper standing on the corner
Wrappers flying in the wind
Waitress up from Alabama
Can't believe the cold she's in
And me, I'm sitting in my castle
On the verge of a divorce

And if I haven't got a hassle
I'll create my own, of course
Still I gotta live with my feelings
But I know about science too
And fame and death and money
And what they do to you

And I am gonna need a miracle
I am gonna need a miracle
I am gonna need a miracle
Tonight on Avenue B

I bought about a hundred candles
I'm burnin' em both night and day
I'm sleepin' when I should be eatin'
Cryin' when I should be gay
My girlfriend's warm and loves me
She's knockin' but she can't get in
I'm a product of the paranoia
Of the age I'm in

And I am gonna need a miracle
I'm really gonna need a miracle
I'm really gonna need a miracle
Tonight on Avenue B

I see the students out my window
They're walking in their student clothes
Eatin' books and information
To make their understanding grow
But this much I understand
It's hard to be an empty man
But since I gave `em every part of me
I ain't free

And I am gonna need a miracle
I am gonna need a miracle
I am gonna need a miracle
Tonight on Avenue B

I am gonna need a miracle
I am gonna need a miracle
I am gonna need a miracle
Tonight on Avenue B

Inalado pelo silêncio que em outros tempos era apenas a veste do acaso

Acordar para ver a Lua brotar desprotegida, como eu ao seu lado – instável. Inalado pelo silêncio que em outros tempos era apenas a veste do acaso.

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

O poeta não pode anoitecer antes do dia chegar!

Não pode! Mesmo o poeta que tudo acha. E se perde achando que tudo pode. Ele não vai poder, perdido - como está. O poeta não pode anoitecer antes do dia chegar!

Geração exonerada - Bernardo Almeida


Geração exonerada

Na distinção entre um sorriso e uma lágrima
Pende para o absurdo desejo da catástrofe
Uma pavorosa mania não mais possível
De ser expressa por meio de gestos calculados
Os movimentos, seqüencialmente imperceptíveis,
Protegem o esquecimento que tomará conta da sua alma
Descarnada, desnuda, etérea, imaterial
Dilacerada e agredida como cada milímetro da sua ossada
Escondes este peso em um jazigo distante
Onde apenas olhares mortos te alcançam
Colabora com a terra que fornece a colheita
Da qual tanto te beneficiaste em vida
Colha agora a raiz, e deixa o fruto para os que restam
Contentas-te com a jaula em que te encerras
Sem praguejar contra o fardo que te aflige
O teu rastro, em breve, será apagado

Para que as novas gerações sejam mais belas e ternas

Menos hipócrita, sujismunda, atávica e apática
Como as guardas, os punhos, os corações e as lanças
Dessa tacanha representação da realidade humana 

Bernardo Almeida