"Escrever é cometer um crime a cada linha. Ler é cometer dois a cada palavra".
segunda-feira, 24 de outubro de 2011
José Inácio Vieira de Melo entrevista Bernardo Almeida - "A poesia é uma fratura exposta"
UM CAMINHO NATURAL – BERNARDO ALMEIDA nasceu em Salvador (BA), no ano de 1981. Passou a infância em Recife, mudando-se para São Paulo na década de 1990. Em 2001, retornou à cidade natal, onde vive até o momento. É poeta, fotógrafo digital [desenvolve imagens artísticas sob o conceito da hibridez], escritor de contos, roteiros e tiras, compositor e livre pensador. Mantém o site http://www.bernardoalmeida.jor.br/, no qual expõe poesias, reflexões e imagens híbridas. Estreou em 2005 com dois livros, Achados e Perdidos/Crimes Noturnos (poesia) e Acorde Violento (contos). Participou das antologias poéticas Labirinto de espelhos (2007), Caderno Literário Impresso (2008), O Imaginário do Mar e do Navegador (2009), entre outros. Quando criança Bernardo Almeida escrevia seu nome em versos, portanto ser poeta foi um caminho natural. Vamos ver o que pensa o escritor fluido que sente a poesia como uma fratura exposta.
JOSÉ INÁCIO VIEIRA DE MELO – Para o poeta Schiller “a poesia é uma força divina e misteriosa, que age de maneira incompreendida”. E para você, o que é a poesia? E por que ser poeta? É algo imprescindível em sua vida?
BERNARDO ALMEIDA – Eu sinto a poesia como uma fratura exposta. É quando a pele rompe, o osso brota e o sangue jorra que enxergamos, de fato, o que há dentro de nós. É uma forma de autoconhecimento bastante impiedosa, apesar de eu não acreditar que a dor seja necessariamente a única fonte de inspiração de um poeta. É uma experiência sublime, bastante íntima, e, ao mesmo tempo, comum a todos – seja como criador, seja como leitor. No entanto, também acredito que a poesia possa ser o momento anterior a essa fratura, quando ainda não sabemos o que se esconde sob a pele e ficamos a imaginar.
Sobre ser poeta, acho que foi um caminho natural. Simplesmente, segui o fluxo e desemboquei nisso. Não consigo me enxergar apartado da poesia. Ser poeta muitas vezes incorre em baixas no campo de batalha da vida, mas isso não me intimida. Ao contrário, traz mais lenha à fogueira.
JIVM – Como a poesia chegou na sua vida? Lembra do primeiro livro de poesia que leu? E agora, qual livro está lendo? E quais são seus autores referenciais?
BA – Acredito que o meu primeiro contato com os versos aconteceu quando estava aprendendo a escrever o meu nome completo. Eu insistia em escrevê-lo versificado. Agora, livro de poesia, lembro-me de um, quando morava em Recife ainda na década de 1980, que trazia poesias de Manuel Bandeira, Drummond e Cecília Meireles. Mas, não recordo o título da obra.
No momento, estou lendo Poemas e Ensaios, de Edgard Allan Poe, Outono Transfigurado, de Georg Trakl, Ode ao Vento Oeste e Outros Poemas, de P. B. Shelley, além de alguns poemas de Nietzsche, em A Gaia Ciência. Estou terminando também a leitura de um livro do Marquês de Sade chamado “Escritos filosóficos e políticos” no qual achei uma poesia bastante interessante dele. Fora esses que citei, sempre mantenho no meu criado-mudo alguns autores, que são como companheiros de bar. No entanto, ficam ao lado da cama em forma de livro, e o máximo que chegam perto do álcool é através dos respingos da minha saliva ao ler em voz alta seus textos. São eles: Baudelaire, Bukowski, Pablo Neruda, Allen Ginsberg, Lawrence Ferlinghetti, Augusto dos Anjos, Genaro de Vasconcelos, Castro Alves, Antero de Quental... Ficam divididos em duas pilhas ao lado da cama junto com outros títulos em prosa. Tenho mania de ler vários livros ao mesmo tempo... Meus autores preferidos, para não cometer injustiças, são aqueles cujas obras ainda estão na minha biblioteca – seja física ou virtual (Rimbaud, Dylan Thomas, Maiakóvski, Leminski, Vinícius de Moraes, Walt Whitman, Fernando Pessoa, Sylvia Plath, Ediane do Monte, Leonard Cohen, Elizeu Moreira Paranaguá e mais uma galera).
JIVM – Como você analisa o cenário literário da Bahia? Principalmente de Salvador, que é a cidade em que você vive? E a população de Salvador tem conhecimento dos seus autores contemporâneos? Em caso negativo, o que poderia ser feito para que os poetas, e os escritores em geral, fossem mais lidos e, consequentemente, mais conhecidos e seus livros vendessem mais?
BA – Na Bahia, o cenário literário é bastante plural. Percebo que há muita gente escrevendo, mas não há estrutura editorial aqui. Então, boa parte do que se publica tem interferência do Estado, através dos editais. Acho importante a existência desse tipo de auxílio, mas o artista perde muito com essa vinculação, que representa um modelo bastante ultrapassado. A arte, para mim, teve um papel libertador. De acordo com esse ponto-de-vista, não compreendo como a associação de um escritor e sua obra com as estruturas governamentais de poder de uma sociedade possam contribuir para a manutenção desse caráter intrínseco à arte. Os artistas sempre estiveram do outro lado quando governos de direita e esquerda tentaram oprimir e desrespeitar ainda mais os direitos humanos.
A população de Salvador conhece pouco sobre quem são seus autores contemporâneos. De uma forma geral, para um número significativo de pessoas, tivemos apenas Castro Alves, Gregório de Matos, Jorge Amado e João Ubaldo Ribeiro. Talvez eu esteja exagerando. No entanto, isso não reflete o grau de interesse das pessoas daqui pela literatura, que é razoável para um País como o nosso - repleto de analfabetos.
Acredito que se os educadores tivessem mais interesse pela literatura, sobretudo pela poesia, teríamos um número maior de apreciadores. Acho também que o formato dos eventos literários precisa mudar. Infelizmente, tudo o que não tem cara de shopping center, tudo o que não envolve espetacularização, atrai menos público nos dias atuais. No final de dezembro, fui a um evento de literatura no Teatro Castro Alves que fazia dó. A platéia era composta basicamente pelos expositores.
JIVM – Qual a contribuição que as novas tecnologias trouxeram para literatura? E o livro, está com seus dias contados? Um novo suporte mais prático poderá aumentar o número de leitores?
BA – As novas tecnologias facilitaram a disseminação de obras e autores de uma maneira fantástica. É um canal de comunicação poderoso, sobretudo para escritores independentes. Quando liberei gratuitamente no meu site (www.bernardoalmeida.jor.br) dois arquivos de poesia, Achados e Perdidos e Crimes Noturnos, não imaginava que chegaria em 2010 com mais de 20 mil downloads. A internet nos tornou menos reféns de editoras. Penso que os leitores de e-books têm tudo para se popularizarem no Brasil, e isso vai espelhar o interesse dessa nova geração pela leitura. No entanto, não acredito que o livro esteja com os dias contados. Talvez, o formato livro, em alguns casos, sim. Vejo muitas pessoas baixando e-books, gratuitos ou pagos, e imprimindo eles depois. Por outro lado, eu mesmo tenho muitos e-books no computador os quais comprei, posteriormente, uma cópia em papel. Dá para conviver sem que o autor sofra com isso. Na verdade, ele só tem a ganhar porque cada formato está ligado a um tipo de público. Então, o que acontece é uma adequação para que mais pessoas possam ter acesso a obras literárias.
JIVM – E o que mais? Quais projetos? Já pensa em publicar o primeiro livro?
BA – Na verdade, eu já publiquei um primeiro livro, mas foi de maneira independente. Depois, quando vendi os exemplares em papel, distribui os arquivos gratuitamente na web. Penso em publicar outro livro em papel, sim. Ainda em 2011. O que não falta é poesia, mas vida de sagitariano não é muito ordenada – são as paixões, antes dos planos, que nos guiam.
http://jivmcavaleirodefogo.blogspot.com/2011/01/sangue-novo-bernardo-almeida.html
domingo, 23 de outubro de 2011
quinta-feira, 20 de outubro de 2011
"Morar na Arte" - Exposição de Ediane do Monte
Ediane do Monte, já consagrada fotógrafa e artista plástica, com devaneios bissextos na poesia, está para inaugurar, na sexta vindoura, 21 de outubro, às 19 horas, no salão de festas do Edifício Eldorado, onde a artista se esconde dos males do mundo, isto quer dizer, mora no mesmo prédio, a exposição Morar na Arte composta de 17 fotografias impressas em papéis e totalmente dedicada aos moradores do edifício, que tem, em sua arquitetura, características especiais e assombra, por vezes, com suas linhas tortuosas. De arquitetura modernista, o Eldorado foi criado pelo arquiteto Eduardo Cerqueira Pinto, e inaugurado em 1955, um edifício especial para história da arquitetura. Quem perder a vernissage, pode visitar a exposição entre os dias 22 e 23 das 16 às 20 horas.
Contato: Ediane do Monte
Atelier Frida Kahlo II
Tel. 33322123 ou 82029821
Read more: http://clippingsetaro.blogspot.com/#ixzz1bNQbMsI0
sexta-feira, 14 de outubro de 2011
Rafinha Bastos: quando o bufão vira vilão
Rafinha Bastos: quando o bufão vira vilão
A recente suspensão do comediante Rafinha Bastos do CQC, programa que apresentava junto com Marcelo Tas e tantos outros ‘colegas’ na Bandeirantes, expõe a frágil liberdade de imprensa e de expressão que temos no Brasil de hoje. Liberdade, sim, mas sempre subordinada. E, portanto, subestimada e constrangida.
No mínimo, o caso expõe algo grave. E, ao mesmo tempo, banal, uma vez que faz parte do cotidiano dos bastidores de jornais impressos e virtuais, canais de televisão e emissoras de rádio: o controle. E não precisamos mais de um regime ditatorial e antidemocrático autêntico para exercer essa função, nem de religiões ou mesmo de organizações sociais conservadoras como a TFP.
Temos as megaempresas e seus agentes publicitários para disseminar o barulho entorpecedor de suas banalidades. Ou promover um silêncio generalizado e providencial. Para definir e estimular a produção do ‘melhor conteúdo’. Para combinar entretenimento - há quem chame de cultura - e consumo.
Para controlar o que você deve ler, ver e ouvir, baseando-se no que apostam ser aquilo que todas as pessoas têm condições de ler, ver e ouvir sem se sentirem ‘ofendidas’. E mais: determinar o que você tem permissão para falar – se for contratado para fazer parte do circo, como Rafinha Bastos.
Apesar de jactarem-se em discurso contrário, negando as restrições ao ofício, a censura ainda existe. Atualmente, de maneira mais perversa. Ela é silenciosa e amorfa. Não tem partido, mas representa a quase todos com sua moral de presépio. E tem o poder de matar uma pessoa sem tirar dela o direito de continuar viva.
Penso que, diferentemente do que foi sugerido implicitamente no noticiário, o pivô dessa história não é o comediante Bastos, mas o ex-jogador de futebol que se intrometeu na situação. Se ele não contatasse a emissora ameaçando retaliá-la comercialmente caso o humorista não fosse punido, nada iria acontecer a Rafinha além do habitual: responder processos na Justiça. E bastaria. Os incomodados que se interponham.
Mas a piada estabeleceu uma polêmica e foi promovida a escândalo com a interferência do ex-craque. O que Ronaldo fez em seu sobressalto impulsivo foi apenas mostrar a dinâmica da relação entre veículos de comunicação e as empresas anunciantes: subserviência editorial quase plena. Prostituição. Para os mais contidos, casamento entre conteúdo e propaganda, sendo o segundo mais importante que o primeiro. Ou seja, interesse público abaixo dos interesses comerciais de todos os envolvidos no negócio. Melhor: farsa e fraude.
Tudo bem. O que se pode esperar? O CQC e seus integrantes sempre assumiram uma postura de bajuladores da presidência da República, a chefia máxima do Executivo nacional. Mas, de empresas? Também. Ainda, de acordo com o que foi veiculado, para exibir um comercial de trinta segundos no programa custa R$ 130 mil. Ações de merchandising podem atingir a casa dos R$ 2,4 milhões.
Enquanto o comediante Rafinha Bastos foi um bom boneco de ventríloquo e multiplicava as vendas das empresas que nele tatuavam seus emblemas, suas marcas, ele era um ídolo comercial. Um prodígio. Agora, quando começa a querer ganhar independência em nome de sua ‘arte’, é transformado em monstro e banido da farra.
Então, o que vi foi a censura ‘mal feita’ - porque vazou – se impor, resultando na repercussão exagerada de um comentário medíocre. E que não oferece qualquer ‘risco’ à segurança das hordas de hipócritas moralizadores que fazem a cabeça de muitos brasileiros.
A liberdade, mesmo em forma de piada, custa caro. Rafinha Bastos testou os limites do seu quinhão e foi punido por isso. Ficou evidenciado aí que o humorista foi castigado por ‘transgredir’ um direito – se é que isso é possível – e não por violar uma lei. O conteúdo da mensagem não importa. Defendo o direito de qualquer um expressar o que quer que queira. Custe o que custar.
E foi um simples ex-jogador de futebol, metido a empresário de comunicação, que agiu tal qual um Hugo Chávez. Mas, convenhamos, ele é despreparado para assuntos como esses. Foi um dos maiores ídolos da nação, é bem verdade. Mas, não passou de um jogador de futebol.
Agora, sem clube para defender e sem pernas que valham milhões por possibilidades de chutes ao gol, resolve atacar de censor. A aposentadoria tem dessas coisas.
Porra, Brasil, dá um tempo! Uma sociedade que não reage e nem se revolta com a corrupção dos seus representantes políticos senão com atos previsíveis e, por isso mesmo, ineficazes, escandalizar-se com uma piada proferida por um personagem midiático? Um personagem de circo? Mau sinal. Há algo de fétido nesse Brasil-sil-sil-silêncio.
Em minha opinião, piada que pega mal é censura. Que, além de ser uma atitude estúpida, é inconstitucional.
Bernardo Almeida
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