Segue a primeira música liberada do novo disco de Bob Dylan.
"Escrever é cometer um crime a cada linha. Ler é cometer dois a cada palavra".
terça-feira, 27 de janeiro de 2015
João Ubaldo Ribeiro sobre a Bahia (Bernardo Almeida)
De ontem para hoje tive um sonho
para lá de esquisito, o que não importa agora, e não sei por qual motivo
lembrei-me do grande escritor baiano João Ubaldo Ribeiro, me vindo à mente o
ano de 2010, quando ele esteve em Salvador para divulgar o livro O albatroz
azul. Recebendo com carinho os meus livretos de poemas, segurando-os na mão em
que não sustinha seu copo com o “guaranazinho”, o animado autor reservou um
espaço para eles sobre a sua mesa de autógrafos, como consta em fotos e vídeos
realizados naquela agitada noite. Poderia tê-los picotado – eu não me importaria.
Mas o Ubaldo era um escritor realizado – e tão interessado no mundo que o
cercava quanto interessante. Mais itaparicano que leblonino, reverenciou com
generosidade os dois lugares em que mais se sentiu à vontade, como em casa.
Abaixo, deixo transcrito trecho
do discurso proferido por ele, quando tomou posse na cadeira nº 9 da Academia
de Letras da Bahia, dois anos mais tarde, em 2012. Sim, a Bahia pulsava em seu
coração. Era grato à terra que o havia presenteado com a “régua e o compasso”,
dando a ele os elementos que fustigaram a sua imaginação, tornando-o um dos mais
importantes escritores contemporâneos universais – sendo ele um sujeito sul-americano,
brasileiro, baiano e insular.
“Na
Bahia, aprendi o encanto de andar de madrugada com as pedras das ruas molhadas
pela chuva recente, vendo meus amigos, tanto os da minha idade quanto os mais
velhos, parar, abrir os braços, apontar os campanários ou o casario de Santo
Antônio Além do Carmo, e recitar poetas do mundo todo, com quem nos sentíamos
irmanados. Andei com pintores, escultores, cantores, mágicos de rua, jagunços,
vagabundos, cafetinas lendárias, mulheres enigmáticas, anarquistas,
stalinistas, trotskistas, fascistas, músicos loucos, ouvi todos os sotaques.
Conheci gente mitológica, escutei e contei colhudas* e narrações de milagres
portentosos, naveguei de saveiro pelas águas da baía, fiz samba de roda, saí de
mulher num carnaval, participei de expedições de pesca, virei cozinheiro,
sonhei com revoluções, marchei em passeatas e agitações nas praças, assinei
manifestos vanguardistas, desfilei no Sete de Setembro, levei moças para
conhecer o luar de Abaeté, tirei muitas vezes nota dez em redação, mas também já
tomei zero, decorei Virgílio, pesquei em provas de Matemática, editei
suplementos literários, li Sartre, freqüentei a porta da Livraria Civilização
Brasileira da Rua Chile, onde não conhecer as novidades culturais podia
resultar em opróbrio, algumas vezes parei à meia-noite à porta da Catedral,
junto com amigos, achando que ouvíamos o fantasma do padre Vieira lá dentro,
esbravejando contra os hereges holandeses. Que mais me deu a Bahia, que mais
nos deu, com que outras graças nos rodeou e nos criou? Bem mais fácil seria
enumerar o que ela não nos deu. Quanto a mim, é impossível empreender esse
inventário, sou devedor, não sou credor de nada”. (João
Ubaldo Ribeiro em seu discurso de posse na cadeira nº 9 da Academia de Letras
da Bahia).
*mentira,
em baianês
sexta-feira, 16 de janeiro de 2015
Waly Salomão: 'a poesia não salva nada nem ninguém'
José Inácio Vieira de Melo pegou o boi!
Poema inédito de JIVM, a ser publicado no livro 'Sete', este ano.
Ler o livro da vaca. Desfolhá-lo
até achar o fio de Ariadne
e confeccionar a caligrafia:
lâmina que desmembre o Minotauro.
E com fé enfrentar o Minotauro.
Com facão decepar sua cabeça.
Usá-la como tosco candeeiro
para alumiar trágicas veredas.
até achar o fio de Ariadne
e confeccionar a caligrafia:
lâmina que desmembre o Minotauro.
E com fé enfrentar o Minotauro.
Com facão decepar sua cabeça.
Usá-la como tosco candeeiro
para alumiar trágicas veredas.
O sacrifício é um romance!
Com efeito, a literatura se situa depois da religião da qual ela é
herdeira. O sacrifício é um romance, é um conto, ilustrado de maneira
sangrenta. Ou antes, é, no estado rudimentar, uma representação teatral,
um drama reduzido ao episódio final, no qual a vítima, animal ou
humana, representa sozinha, mas representa até a morte. (Georges
Bataille)
Je suis charlie
Qui est-ce que je suis meme? Charlie? Ou la liberté de la bouche fermé partout?
Provocação? Ou simplesmente soarei provinciano com este francês tão tosco quanto os últimos acontecimentos internacionais, cujos desdobramentos podem ser ainda mais trágicos, com alcance multiplicado daqui pra frente. Alguns déspotas estão incitando ódios, instilando medos e precipitando embates entre nações e pessoas comuns para justificar ações belicistas em diversas partes do mundo, lastreados nos mais estapafúrdios refúgios da lógica, para defender os mais restritivos, egoístas, nefastos, seletivos e repugnantes interesses. Aceitaremos com uma expressão de Mc Lanche Feliz a novíssima ordem mundial?
Provocação? Ou simplesmente soarei provinciano com este francês tão tosco quanto os últimos acontecimentos internacionais, cujos desdobramentos podem ser ainda mais trágicos, com alcance multiplicado daqui pra frente. Alguns déspotas estão incitando ódios, instilando medos e precipitando embates entre nações e pessoas comuns para justificar ações belicistas em diversas partes do mundo, lastreados nos mais estapafúrdios refúgios da lógica, para defender os mais restritivos, egoístas, nefastos, seletivos e repugnantes interesses. Aceitaremos com uma expressão de Mc Lanche Feliz a novíssima ordem mundial?
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