sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Rafinha Bastos: quando o bufão vira vilão



Rafinha Bastos: quando o bufão vira vilão

A recente suspensão do comediante Rafinha Bastos do CQC, programa que apresentava junto com Marcelo Tas e tantos outros ‘colegas’ na Bandeirantes, expõe a frágil liberdade de imprensa e de expressão que temos no Brasil de hoje. Liberdade, sim, mas sempre subordinada. E, portanto, subestimada e constrangida.

No mínimo, o caso expõe algo grave. E, ao mesmo tempo, banal, uma vez que faz parte do cotidiano dos bastidores de jornais impressos e virtuais, canais de televisão e emissoras de rádio: o controle. E não precisamos mais de um regime ditatorial e antidemocrático autêntico para exercer essa função, nem de religiões ou mesmo de organizações sociais conservadoras como a TFP.

Temos as megaempresas e seus agentes publicitários para disseminar o barulho entorpecedor de suas banalidades. Ou promover um silêncio generalizado e providencial. Para definir e estimular a produção do ‘melhor conteúdo’. Para combinar entretenimento - há quem chame de cultura - e consumo.

Para controlar o que você deve ler, ver e ouvir, baseando-se no que apostam ser aquilo que todas as pessoas têm condições de ler, ver e ouvir sem se sentirem ‘ofendidas’. E mais: determinar o que você tem permissão para falar – se for contratado para fazer parte do circo, como Rafinha Bastos.

Apesar de jactarem-se em discurso contrário, negando as restrições ao ofício, a censura ainda existe. Atualmente, de maneira mais perversa. Ela é silenciosa e amorfa. Não tem partido, mas representa a quase todos com sua moral de presépio. E tem o poder de matar uma pessoa sem tirar dela o direito de continuar viva.

Penso que, diferentemente do que foi sugerido implicitamente no noticiário, o pivô dessa história não é o comediante Bastos, mas o ex-jogador de futebol que se intrometeu na situação. Se ele não contatasse a emissora ameaçando retaliá-la comercialmente caso o humorista não fosse punido, nada iria acontecer a Rafinha além do habitual: responder processos na Justiça. E bastaria. Os incomodados que se interponham.

Mas a piada estabeleceu uma polêmica e foi promovida a escândalo com a interferência do ex-craque. O que Ronaldo fez em seu sobressalto impulsivo foi apenas mostrar a dinâmica da relação entre veículos de comunicação e as empresas anunciantes: subserviência editorial quase plena. Prostituição. Para os mais contidos, casamento entre conteúdo e propaganda, sendo o segundo mais importante que o primeiro. Ou seja, interesse público abaixo dos interesses comerciais de todos os envolvidos no negócio. Melhor: farsa e fraude.

Tudo bem. O que se pode esperar? O CQC e seus integrantes sempre assumiram uma postura de bajuladores da presidência da República, a chefia máxima do Executivo nacional. Mas, de empresas? Também. Ainda, de acordo com o que foi veiculado, para exibir um comercial de trinta segundos no programa custa R$ 130 mil. Ações de merchandising podem atingir a casa dos R$ 2,4 milhões.

Enquanto o comediante Rafinha Bastos foi um bom boneco de ventríloquo e multiplicava as vendas das empresas que nele tatuavam seus emblemas, suas marcas, ele era um ídolo comercial. Um prodígio. Agora, quando começa a querer ganhar independência em nome de sua ‘arte’, é transformado em monstro e banido da farra.

Então, o que vi foi a censura ‘mal feita’ - porque vazou – se impor, resultando na repercussão exagerada de um comentário medíocre. E que não oferece qualquer ‘risco’ à segurança das hordas de hipócritas moralizadores que fazem a cabeça de muitos brasileiros.

A liberdade, mesmo em forma de piada, custa caro. Rafinha Bastos testou os limites do seu quinhão e foi punido por isso. Ficou evidenciado aí que o humorista foi castigado por ‘transgredir’ um direito – se é que isso é possível – e não por violar uma lei. O conteúdo da mensagem não importa. Defendo o direito de qualquer um expressar o que quer que queira. Custe o que custar.

E foi um simples ex-jogador de futebol, metido a empresário de comunicação, que agiu tal qual um Hugo Chávez. Mas, convenhamos, ele é despreparado para assuntos como esses. Foi um dos maiores ídolos da nação, é bem verdade. Mas, não passou de um jogador de futebol.

Agora, sem clube para defender e sem pernas que valham milhões por possibilidades de chutes ao gol, resolve atacar de censor. A aposentadoria tem dessas coisas.

Porra, Brasil, dá um tempo! Uma sociedade que não reage e nem se revolta com a corrupção dos seus representantes políticos senão com atos previsíveis e, por isso mesmo, ineficazes, escandalizar-se com uma piada proferida por um personagem midiático? Um personagem de circo? Mau sinal. Há algo de fétido nesse Brasil-sil-sil-silêncio.

Em minha opinião, piada que pega mal é censura. Que, além de ser uma atitude estúpida, é inconstitucional.

Bernardo Almeida

4 comentários:

gtbk disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
gtbk disse...
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Gustavo Barakat disse...

Conceitualmente, não considero que a simples grosseria seja humor. Se assim fosse, os praticantes de bullying psicológico não poderiam ser reprimidos por ninguém, sob o argumento de que estão lhes tolhendo a liberdade de expressão. No episódio específico, acho infeliz e abusiva a piada do "humorista" - e também considero a reação um tanto exagerada. Mas a censura de estado tem uma intenção totalitária e ditatorial que a meu ver é muito diferente do praticado pela Band. O oposto seria qualquer um poder falar o que quiser, sobre o quê e quem quiser, e a emissora manter essa pessoa no ar, mesmo que contrariando seus interesses comerciais e de imagem. Ao vetar Rafinha, a emissora não estava, ela também, exercitando sua liberdade de expressão corporativa? Pelo que sei, a liberdade de expressão se aplica não só a pessoas físicas, mas também jurídicas. No caso da Band, também é liberdade de expressão ela NÃO QUERER FALAR alguma coisa. Sei que as fronteiras são tênues, mas assim como "o bem-estar da sociedade" é invocado para impor censura, a "liberdade de expressão" é utilizada como argumento para que se tolere o simples desrespeito. A meu ver, a censura inconstitucional a que você se refere aconteceria se Rafinha Bastos não pudesse falar, em lugar nenhum, o que lhe dá na telha. Obedecer a uma diretriz corporativa de não exagero é coisa bem diferente. É tão democrático Rafinha fazer suas piadas de mau gosto quanto Ronaldo usar sua influência para que o pretenso humorista pare de fazê-las. É do jogo democrático. É da vida. E nem se pode traçar um paralelo com Davi X Golias, pois que Rafinha também se arvora em seu poder, já considerável, para ser folgado como é. A multiplicidade de iniciativas e interesses, com possibilidades de ganhos e dores para todos, é que faz um ambiente democrático. E os tão execrados "interesses comerciais",que na minha opinião podem ser bem legítimos, são muito mais importantes para a liberdade de expressão do que gostam de reconhecer os defensores dos fracos e oprimidos. Para mim, a verdadeira liberdade de expressão é assim: você fala o que quiser e tem de lidar com as consequências. Não podem impedi-lo de falar, mas você também não pode impedir que existam consequências. Senão fica fácil.

Haroldo Lima Freire disse...

Acho que um processo de R$ 100 mil na cabeça e a possibilidade de ser preso é uma responsabilidade e tanto para se assumir em nome da vontade de se falar o que quer que se queira. Temos opiniões diferentes, Barakat, mas entendi o seu ponto de vista. E gostei que você tenha exposto ele. Precisamos discordar para enriquecer a nossa democracia. Assim, a liberdade será sempre possível, mesmo que mal-vinda.