quarta-feira, 9 de novembro de 2011

A POESIA, O MAPA, AS GERAÇÕES - Sandro Ornellas (Sangue Novo - 21 poetas baianos do século XXI)


O poeta José Inácio Vieira de Melo é conhecido por toda a Bahia e mesmo mais além como um grande animador cultural no âmbito da literatura, especialmente da poesia. Grande é sua experiência, bem como as simpatias e antipatias que angariou. Organizou e sustentou durante alguns anos um evento Poesia na boca da noite, em que poetas de vários quilates eram convidados para falar de sua poesia e ler alguns de seus versos para um público assíduo. Também foi curador da Praça da poesia na Bienal do Livro da Bahia. Como se tudo isso não bastasse, parece também querer se especializar em organizador de antologias de novos poetas baianos, pois em 2004 já organizara uma antologia de contemporâneos seus – Concerto lírico a quinze vozes (Aboio Livre Edições) –, da qual tive o prazer de participar, voltando agora à tarefa de apresentar novos poetas aos leitores de poesia e repetir que as novas gerações continuam renovando o gesto de escrever poemas no Brasil. É dessa antologia, Sangue novo: 21 poetas baianos do século XXI, recém-publicada pela Escrituras Editora, de que trato, presentes os poetas com uma quantidade de sete a nove poemas cada um.

E o que se pode ler nos poemas desses poetas selecionados, organizados e anotados por José Inácio, alguns deles não mais estreantes em livro e bastante atuantes na vida literária tão absorvente e em tempo real que é a da internet? Em primeiro lugar, nota-se um respeito da parte de quase todos pela palavra poética, geralmente ela própria – a palavra – tema de diversos dos poemas da antologia; também uma atenção à voz que pretendem imprimir em seus textos, em alguns casos, mais tateante, em outros, mais definida, o que de resto é absolutamente natural, dado a idade dos autores. Os Rimbauds são sempre fulgurantes exceções, que confirmam a regra de ouro de que a impressão de um estilo próprio se alcança por um trabalho lento, incessante e inevitavelmente violento sobre si mesmo, uma tatuagem, um pacto de sangue feito entre o corpo de quem escreve e seus instrumentos de inscrição: o lápis, a caneta, o papel, o teclado e a tela. E o que esses poetas, novos escritores, parecem pretender é justamente abrir a facão picadas na selva selvagem, onde possam respirar em um mundo de vigilâncias e controles crescentemente claustrofóbicos. Controles sobre corpos, sobre mentes e sobre palavras. Ao optarem pela palavra poética, pela poesia escrita, optam por lançar no espaço social a aposta de que a lógica do controle do mercado – essa falsa democracia, falsa comunicação horizontal – não os devorou por completo, que ainda resistem e são capazes de construir um espaço de autolegitimação, sem que precisem do crédito alheio (dos banqueiros, dos agiotas, dos editores, dos jornalistas, dos publicitários e dos gigolôs que ocupam o lugar safado de intermediários para uma pseudo-opinião pública), sem que precisem se sentir como homens e mulheres endividados. Escrever é seu gesto de intervenção. Publicar é fazer desse gesto algo público. Mesmo quando cifrado – como a poesia –, para fugir aos onipresentes aparelhos de captura. Por isso o estilo da escrita é sempre também um estilo de vida: não se é poeta, faz-se poeta. Lenta, incessante e violentamente.

Cada um deles foi individualmente comentado na Apresentação de Mayrant Gallo, então que opto por outra estratégia de comentário. Da leitura do conjunto dos autores e poemas de Sangue novo, vejo algumas linhas de força se destacarem e agruparem os poetas em uma espécie de mapa antológico. Não quero enraizá-los em um dos três territórios da antologia que aqui esboçarei, pois cada autor, a seu modo, passeia por todos eles. Esse mapa me apareceu à medida da leitura, da maior ou menor força de impressão dos versos. Tentarei seguir o desenho do mapa um pouco pelo método da exibição exemplar (e de antemão incompleta), pinçar o que de melhor me ficou de cada poeta. Há aqueles cujos textos são de cunho mais reflexivo, às vezes irônico; destaco a quantidade de poemas que falam de tópicas mais tradicionais, sobretudo o tempo e suas variações (perda, velhice, solidão, morte, etc.). Não é uma poesia filosófica, longe disso, mas nutrem tons mais meditativos (mesmo quando sarcásticos) os versos de Bernardo Almeida (“Uma palavra pode ser proferida / E esquecida com o tempo / Outra pode ser aquecida e sentida / Além da eternidade”), Caio Rudá de Oliveira (“letras contam uma vida / perfeitamente contida / num livro sem muita cor // velhice é noite sem estrelas / são memórias foscas / e fim de leitura”), Fabrício de Queiroz Venâncio (“Na carcaça há o festim do abutre; / no asfalto descansa o solo quente, / cozinhando a carne aos urubus no alto”) e Georgio Rios (“Não são os olhos das árvores / que vergam os galhos. // As folhas, e sua rebeldia, / deitam no chão, / o preço da pequena liberdade”).




Mas muitas vezes a reflexão e a meditação emergem através de formas mais próximas do registro lírico, com uma pesquisa de imagens (às vezes paisagens, sertanejas ou pessoais), sons, memórias e formas de conteúdos que traduzem uma possível experiência sublime, ou sua tensão junto a um cotidiano dessublimado, dos quais destaco versos de André Guerra (“Diz-me o que me transborda / O bordado que não cessa / Porque não cabe num copo / A linha que me atravessa”), Clarissa Macedo (“Deixai-lhe cuspir o belo, / apedrejai o despojo / risonho, / como a rosa chá”), Érica Azevedo (“Olho o quintal / E vejo o mar / (...) // Pensar o mar no quintal / é estar em duas caixas fechadas”), Edson Oliveira (“O cachimbo sobre a mesa / e a lembrança dos dedos magros e pretos / sussurram meu nome”), Gabriela Lopes (“Espero as pétalas caírem / Cobrirem a terra de retalhos. / Vejo o clichê se repetir”), Gildeone dos Santos Oliveira (“Envolvida no barro negro, / descansa a Civilização do Couro / afogada na liquidez ensolarada.”), Janara Soares (“De repente os meus sábados são sagrados / (...) / Os pensamentos não são sublimes / mas as almas levitam ares novos.”), Lidiane Nunes (“queria recitar poemas / de amor / ou de amigo. // Mas, da boca, / apenas um sorriso terno / e constrangido.”), Priscila Fernandes (“Dei o nome de Morfeu / a este céu de sódio./ (...) / Morfeu, deus do sono, / céu de gesso e magnésia. / Ampola de fosco vidro com morfina.”), Vânia Melo (“Não traga males / Não faça drama / Enlouqueça, entonteça”) e Vitor Sá Nascimento (“Minha avó o retirava / e o limpava cuidadosa, / o relógio que assuntava / nossa poesia e prosa.”).

Escolhendo outros registros, às vezes mais próximos, às vezes mais distantes dos anteriores, mas ainda dentro da mesma estratégia de montar um mapa antológico desse Sangue novo, há os que optam por um trabalho de certo modo mais provocador com a palavra e com a imagem, indo desde ludismos e versificações proto-experimentais até imagens dessublimadas de choque, sarcasmo e humor, próximas às das várias modulações modernistas ao longo do século XX. Por exemplo, em Alexandre Coutinho (“para que a cadela / que eu seja / com cílios postiços / e de salto agulha / se equilibre / simulando a manhã / num poema”), Daniel Farias (“um dia quero crer no casamento, / na tv, no carro, no banco, no apartamento / quero acreditar em gato preto, / em deus, na dieta, no outro mundo”), Gibran Sousa (“made in love made in god is rock sexoteísmo ou medo do mito minha alegria meu precipício morte sem arbítrio deus é todo vício o sincretismo é o ismo do ismo do ismo do ismo do ismo do is”), Ricardo Thadeu (“na varanda, / meus pais estudam metafísica // vazios indizíveis / residem em mim”), Saulo Moreira (“– É muito difícil desenhar coração no peito. / – Ele cresceu e as asas, no final, começaram nas clavículas. / – E os lábios azuis apareceram. / – Vamos borrar as unhas também. / (...) / – Vamos publicar um livro e fazer o lago dos patos? / – Vamos fingir mais ilusão todo domingo? / – Não se perca de mim, não se esqueça de mim, não desapareça”) e Vanny Araújo (“Os tempos mudaram meu bem / E eu também / Tenho um caminhão de coisas pra fazer / Uma lista de pessoas pra esquecer / O telefone dele pra anotar / Mas e se ele não telefonar?”).

É possível, no entanto, empreender outros produtivos cruzamentos entre esses territórios, que possibilitariam aproximações mais tensas da forma da memória em Georgio Rios e Edson Oliveira, das formas de subjetivação em Priscila Fernandes, Lidiane Nunes e Alexandre Coutinho, do erotismo de Vania Melo e do homoerotismo de Saulo Moreira, do sarcasmo de Bernardo Almeida e do humor de Ricardo Thadeu, dos sonetos de Daniel Farias, Janara Soares, Gibran Sousa e Gildeone dos Santos Oliveira, sempre ao sabor da leitura.

O que mais dizer em relação ao conjunto dos poetas dessa antologia? Primeiro que me incomoda um pouco a percepção geral de que uma década basta para que uma geração substitua a anterior, de que novos valores apareçam e de que comportamentos se modifiquem. Essa percepção, muito comum nos dias que seguem, decorre mais de um certo tipo de jornalismo cultural refém da lógica utilitária do mercado do que de uma reflexão mais consistente sobre transformações sociais; um jornalismo acostumado a confundir troca de geração com entrada no mercado de trabalho ou com listas dos melhores da última década, do último mês, do último ano, do última semana, de ontem. Sendo o que não pertence ao período abrangido pela lista devidamente esquecido e ultrapassado. Lógica cruel, lógica inconsistente, pois as gerações se sucedem em função de outros critérios e desenvolvimentos, à medida que se passa a assumir cargos de decisão, mando e prestígio. No campo literário, isso diz respeito às posições de editores, críticos, professores e escritores procurados para opinar sobre assuntos pretensamente relevantes. Imagino, todavia, que de fato haja uma aceleração nessa sucessão, talvez em função dos incrementos tecnológicos e da própria lógica de contratação do mercado.

Faço essas considerações pensando no quanto esses novos poetas me parecem próximos dos que foram publicados em Concerto lírico..., mesmo levando-se em conta que em Sangue novo o poeta mais velho (um) é nascido em 1980 e os mais jovens (dois) são de 1991, enquanto o mais velho de Concerto lírico... é nascido em 1962. A diferença fundamental, no entanto, e que basta para justificar essa antologia, é serem poetas publicados a partir do século XXI. Tanto a antologia anterior organizada por José Inácio, quanto esta nova repetem certos traços dentro da literatura baiana mais recente: de um lado, um distanciamento de certa tradição do ritmo empostado, exageradamente marcado, da oralidade bacharelesca e paródica, e, de outro lado, a manutenção de um lirismo pungente, carregado de certo tom humanista, pouco próximo de uma moral mais urbana. É uma geração que não se esgota nessa antologia, pois é na ação e pela ação que ela vai se definir: escrever e publicar.

De agora em diante, cabe a esses poetas continuar justamente isso: escrever e publicar, em uma época de transformações e instrumentos ao mesmo tempo tão estimulantes e ilusórios – blogues, twitters, e-books – assomando à vista. Seus desafios são os de como continuar criando e não estacionar nas imagens e ideias de sempre, como criar novos ritmos, formas, surpresas e sonhos estimulantes aos leitores, que continuam a existir, e aliás só aumentam com a internet. Engana-se quem pensa que os poetas só escrevem para si. O valor da poesia não é o valor da troca comercial, do bem de consumo, mas do bem simbólico que o leitor sente como um dom que lhe foi dado, bem que não se calcula e que por isso insistem em repetir que ninguém lê poesia. Poesia é cifra que passa de mão em mão. Senha. Código secreto, não para manter-se longe das mãos populares, mas para evitar cair nas mãos dos gigolôs. As pessoas continuam vivendo experiências que chamam de poéticas, tentando produzi-las e traduzi-las em coisas que chamam de poemas e lendo essas coisas escritas em busca de algum sentido diferente (poesia) para suas vidas. Justo por isso, antologias como esse Sangue novo devem ser saudadas.

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