"Escrever é cometer um crime a cada linha. Ler é cometer dois a cada palavra".
segunda-feira, 21 de novembro de 2011
sábado, 19 de novembro de 2011
Arritmia Declama Garrafa Pet - Ediane do Monte (Vídeo - Dir. Bernardo Almeida)
Ediane do Monte, poeta e artista plástica, expressa-se através do silêncio narrado pelas suas peças e idiossincrasias. O pensamento irrompe inevitável. Instável e feroz como uma locomotiva atrasada, Ediane espelha o contrário de tudo o que vê. O texto foi elaborado a partir de correspondências da artista com seus pares (entre os anos de 2010 e 2011).
Direção, roteiro e edição: Bernardo Almeida
Textos: Ediane do Monte e Bernardo Almeida
Produção: Sarah M.
Locução: Bernardo Almeida
Trilha: Liszt e Mozart
Assista o vídeo em:
http://www.youtube.com/watch?v=0e32pAXTsNA
sexta-feira, 18 de novembro de 2011
O perigo que ronda os crentes de todas as vertentes
Apesar de ter sido submetido a uma educação religiosa nos primeiros dez anos da minha vida – e tendo, depois, passado a estudar um sem número de formas de se religar com o Sagrado, sem em nenhuma delas ter encontrado sentido para abrir mão da minha liberdade de pensamento – posso dizer que não sou um homem que crê.
Porém, percebo que muitos daqueles que freqüentam ambientes religiosos – e aí incluo os grupos com maior número de seguidores no Brasil, como evangélicos de todos os segmentos, católicos e etc – não costumam buscar na fonte as palavras que motivam/justificam a sua fé.
E são guiados por coléricos senhores e senhoras, ludibriadores, zombadores da ignorância alheia e, porque não dizer, do próprio Deus cuja doutrina eles dizem professar. São mentirosos, aproveitadores e ladrões. E em nada se diferem dos seres baixos, cretinos e malignos retratados na Bíblia como porta-vozes de Satanás. Ou, antes, do Diabo – que é o enganador.
A manutenção dessas religiões de farsantes por meio do dinheiro e do trabalho dos crentes de todas as vertentes religiosas é o maior pecado que um servo de Deus pode cometer contra seu Deus. É financiar o caminho que o destruirá, afastando-o da Salvação, do Perdão verdadeiro. Isso tudo, por mera preguiça de ler o livro – ou os livros – no qual acredita encontrar a chave para a sua elevação espiritual.
Ironicamente, é esse povo, tão assíduo em compromissos religiosos, que está colaborando com a causa de Satanás. É esse povo, e não necessariamente os ateus, que está sendo enviado diretamente ao inferno – aos montes. E o pior é que essas almas acreditam cegamente que estão se purificando, construindo uma relação de fidelidade para com o Sagrado, e edificando seu caminho em direção ao Paraíso ou à Salvação. Mas, não estão. Não.
São os crentes de todas as vertentes que estão a financiar o mal, contribuir para o projeto do Diabo, ajudando a aumentar seu rebanho e a abrangência de seu império – baseado em muito ouro e mentiras. Pura sedução, assim é o reino de Mamon.
Crentes de todas as vertentes, adoradores de lobos em peles de cordeiros, vocês serão enviados diretamente para as labaredas mais flamejantes do inferno – por toda uma eternidade, que é tempo demais.
Acordem, crentes de todas as vertentes, porque a própria Bíblia anuncia a proliferação de falsos profetas, que carregam consigo multidões. E eles estão aí, ocupando espaços televisivos, lançando CDs e DVDs, abrindo uma nova igrejola no seu bairro, vendendo tudo e com a sua alma nas mãos.
Não se deixem enganar por aqueles que distorcem a palavra, crentes “letrados” e “iletrados”. Salvem-se enquanto há tempo.
A Palavra não precisa de intermediários.
Orem no silêncio de seus quartos.
E, lembrem-se: o próprio Jesus não tinha religião.
(foto: Bernardo Almeida)
terça-feira, 15 de novembro de 2011
No rastro da cidade - Salvador/Bahia (Bernardo Almeida )
No rastro da cidade III - Salvador/Bahia (Bernardo Almeida )
sexta-feira, 11 de novembro de 2011
No rastro da cidade - Salvador/Bahia (Bernardo Almeida )
No rastro da cidade - Salvador/Bahia (Bernardo Almeida )
quarta-feira, 9 de novembro de 2011
A POESIA, O MAPA, AS GERAÇÕES - Sandro Ornellas (Sangue Novo - 21 poetas baianos do século XXI)
O poeta José Inácio Vieira de Melo é conhecido por toda a Bahia e mesmo mais além como um grande animador cultural no âmbito da literatura, especialmente da poesia. Grande é sua experiência, bem como as simpatias e antipatias que angariou. Organizou e sustentou durante alguns anos um evento Poesia na boca da noite, em que poetas de vários quilates eram convidados para falar de sua poesia e ler alguns de seus versos para um público assíduo. Também foi curador da Praça da poesia na Bienal do Livro da Bahia. Como se tudo isso não bastasse, parece também querer se especializar em organizador de antologias de novos poetas baianos, pois em 2004 já organizara uma antologia de contemporâneos seus – Concerto lírico a quinze vozes (Aboio Livre Edições) –, da qual tive o prazer de participar, voltando agora à tarefa de apresentar novos poetas aos leitores de poesia e repetir que as novas gerações continuam renovando o gesto de escrever poemas no Brasil. É dessa antologia, Sangue novo: 21 poetas baianos do século XXI, recém-publicada pela Escrituras Editora, de que trato, presentes os poetas com uma quantidade de sete a nove poemas cada um.
E o que se pode ler nos poemas desses poetas selecionados, organizados e anotados por José Inácio, alguns deles não mais estreantes em livro e bastante atuantes na vida literária tão absorvente e em tempo real que é a da internet? Em primeiro lugar, nota-se um respeito da parte de quase todos pela palavra poética, geralmente ela própria – a palavra – tema de diversos dos poemas da antologia; também uma atenção à voz que pretendem imprimir em seus textos, em alguns casos, mais tateante, em outros, mais definida, o que de resto é absolutamente natural, dado a idade dos autores. Os Rimbauds são sempre fulgurantes exceções, que confirmam a regra de ouro de que a impressão de um estilo próprio se alcança por um trabalho lento, incessante e inevitavelmente violento sobre si mesmo, uma tatuagem, um pacto de sangue feito entre o corpo de quem escreve e seus instrumentos de inscrição: o lápis, a caneta, o papel, o teclado e a tela. E o que esses poetas, novos escritores, parecem pretender é justamente abrir a facão picadas na selva selvagem, onde possam respirar em um mundo de vigilâncias e controles crescentemente claustrofóbicos. Controles sobre corpos, sobre mentes e sobre palavras. Ao optarem pela palavra poética, pela poesia escrita, optam por lançar no espaço social a aposta de que a lógica do controle do mercado – essa falsa democracia, falsa comunicação horizontal – não os devorou por completo, que ainda resistem e são capazes de construir um espaço de autolegitimação, sem que precisem do crédito alheio (dos banqueiros, dos agiotas, dos editores, dos jornalistas, dos publicitários e dos gigolôs que ocupam o lugar safado de intermediários para uma pseudo-opinião pública), sem que precisem se sentir como homens e mulheres endividados. Escrever é seu gesto de intervenção. Publicar é fazer desse gesto algo público. Mesmo quando cifrado – como a poesia –, para fugir aos onipresentes aparelhos de captura. Por isso o estilo da escrita é sempre também um estilo de vida: não se é poeta, faz-se poeta. Lenta, incessante e violentamente.
Cada um deles foi individualmente comentado na Apresentação de Mayrant Gallo, então que opto por outra estratégia de comentário. Da leitura do conjunto dos autores e poemas de Sangue novo, vejo algumas linhas de força se destacarem e agruparem os poetas em uma espécie de mapa antológico. Não quero enraizá-los em um dos três territórios da antologia que aqui esboçarei, pois cada autor, a seu modo, passeia por todos eles. Esse mapa me apareceu à medida da leitura, da maior ou menor força de impressão dos versos. Tentarei seguir o desenho do mapa um pouco pelo método da exibição exemplar (e de antemão incompleta), pinçar o que de melhor me ficou de cada poeta. Há aqueles cujos textos são de cunho mais reflexivo, às vezes irônico; destaco a quantidade de poemas que falam de tópicas mais tradicionais, sobretudo o tempo e suas variações (perda, velhice, solidão, morte, etc.). Não é uma poesia filosófica, longe disso, mas nutrem tons mais meditativos (mesmo quando sarcásticos) os versos de Bernardo Almeida (“Uma palavra pode ser proferida / E esquecida com o tempo / Outra pode ser aquecida e sentida / Além da eternidade”), Caio Rudá de Oliveira (“letras contam uma vida / perfeitamente contida / num livro sem muita cor // velhice é noite sem estrelas / são memórias foscas / e fim de leitura”), Fabrício de Queiroz Venâncio (“Na carcaça há o festim do abutre; / no asfalto descansa o solo quente, / cozinhando a carne aos urubus no alto”) e Georgio Rios (“Não são os olhos das árvores / que vergam os galhos. // As folhas, e sua rebeldia, / deitam no chão, / o preço da pequena liberdade”).
Mas muitas vezes a reflexão e a meditação emergem através de formas mais próximas do registro lírico, com uma pesquisa de imagens (às vezes paisagens, sertanejas ou pessoais), sons, memórias e formas de conteúdos que traduzem uma possível experiência sublime, ou sua tensão junto a um cotidiano dessublimado, dos quais destaco versos de André Guerra (“Diz-me o que me transborda / O bordado que não cessa / Porque não cabe num copo / A linha que me atravessa”), Clarissa Macedo (“Deixai-lhe cuspir o belo, / apedrejai o despojo / risonho, / como a rosa chá”), Érica Azevedo (“Olho o quintal / E vejo o mar / (...) // Pensar o mar no quintal / é estar em duas caixas fechadas”), Edson Oliveira (“O cachimbo sobre a mesa / e a lembrança dos dedos magros e pretos / sussurram meu nome”), Gabriela Lopes (“Espero as pétalas caírem / Cobrirem a terra de retalhos. / Vejo o clichê se repetir”), Gildeone dos Santos Oliveira (“Envolvida no barro negro, / descansa a Civilização do Couro / afogada na liquidez ensolarada.”), Janara Soares (“De repente os meus sábados são sagrados / (...) / Os pensamentos não são sublimes / mas as almas levitam ares novos.”), Lidiane Nunes (“queria recitar poemas / de amor / ou de amigo. // Mas, da boca, / apenas um sorriso terno / e constrangido.”), Priscila Fernandes (“Dei o nome de Morfeu / a este céu de sódio./ (...) / Morfeu, deus do sono, / céu de gesso e magnésia. / Ampola de fosco vidro com morfina.”), Vânia Melo (“Não traga males / Não faça drama / Enlouqueça, entonteça”) e Vitor Sá Nascimento (“Minha avó o retirava / e o limpava cuidadosa, / o relógio que assuntava / nossa poesia e prosa.”).
Escolhendo outros registros, às vezes mais próximos, às vezes mais distantes dos anteriores, mas ainda dentro da mesma estratégia de montar um mapa antológico desse Sangue novo, há os que optam por um trabalho de certo modo mais provocador com a palavra e com a imagem, indo desde ludismos e versificações proto-experimentais até imagens dessublimadas de choque, sarcasmo e humor, próximas às das várias modulações modernistas ao longo do século XX. Por exemplo, em Alexandre Coutinho (“para que a cadela / que eu seja / com cílios postiços / e de salto agulha / se equilibre / simulando a manhã / num poema”), Daniel Farias (“um dia quero crer no casamento, / na tv, no carro, no banco, no apartamento / quero acreditar em gato preto, / em deus, na dieta, no outro mundo”), Gibran Sousa (“made in love made in god is rock sexoteísmo ou medo do mito minha alegria meu precipício morte sem arbítrio deus é todo vício o sincretismo é o ismo do ismo do ismo do ismo do ismo do is”), Ricardo Thadeu (“na varanda, / meus pais estudam metafísica // vazios indizíveis / residem em mim”), Saulo Moreira (“– É muito difícil desenhar coração no peito. / – Ele cresceu e as asas, no final, começaram nas clavículas. / – E os lábios azuis apareceram. / – Vamos borrar as unhas também. / (...) / – Vamos publicar um livro e fazer o lago dos patos? / – Vamos fingir mais ilusão todo domingo? / – Não se perca de mim, não se esqueça de mim, não desapareça”) e Vanny Araújo (“Os tempos mudaram meu bem / E eu também / Tenho um caminhão de coisas pra fazer / Uma lista de pessoas pra esquecer / O telefone dele pra anotar / Mas e se ele não telefonar?”).
É possível, no entanto, empreender outros produtivos cruzamentos entre esses territórios, que possibilitariam aproximações mais tensas da forma da memória em Georgio Rios e Edson Oliveira, das formas de subjetivação em Priscila Fernandes, Lidiane Nunes e Alexandre Coutinho, do erotismo de Vania Melo e do homoerotismo de Saulo Moreira, do sarcasmo de Bernardo Almeida e do humor de Ricardo Thadeu, dos sonetos de Daniel Farias, Janara Soares, Gibran Sousa e Gildeone dos Santos Oliveira, sempre ao sabor da leitura.
O que mais dizer em relação ao conjunto dos poetas dessa antologia? Primeiro que me incomoda um pouco a percepção geral de que uma década basta para que uma geração substitua a anterior, de que novos valores apareçam e de que comportamentos se modifiquem. Essa percepção, muito comum nos dias que seguem, decorre mais de um certo tipo de jornalismo cultural refém da lógica utilitária do mercado do que de uma reflexão mais consistente sobre transformações sociais; um jornalismo acostumado a confundir troca de geração com entrada no mercado de trabalho ou com listas dos melhores da última década, do último mês, do último ano, do última semana, de ontem. Sendo o que não pertence ao período abrangido pela lista devidamente esquecido e ultrapassado. Lógica cruel, lógica inconsistente, pois as gerações se sucedem em função de outros critérios e desenvolvimentos, à medida que se passa a assumir cargos de decisão, mando e prestígio. No campo literário, isso diz respeito às posições de editores, críticos, professores e escritores procurados para opinar sobre assuntos pretensamente relevantes. Imagino, todavia, que de fato haja uma aceleração nessa sucessão, talvez em função dos incrementos tecnológicos e da própria lógica de contratação do mercado.
Faço essas considerações pensando no quanto esses novos poetas me parecem próximos dos que foram publicados em Concerto lírico..., mesmo levando-se em conta que em Sangue novo o poeta mais velho (um) é nascido em 1980 e os mais jovens (dois) são de 1991, enquanto o mais velho de Concerto lírico... é nascido em 1962. A diferença fundamental, no entanto, e que basta para justificar essa antologia, é serem poetas publicados a partir do século XXI. Tanto a antologia anterior organizada por José Inácio, quanto esta nova repetem certos traços dentro da literatura baiana mais recente: de um lado, um distanciamento de certa tradição do ritmo empostado, exageradamente marcado, da oralidade bacharelesca e paródica, e, de outro lado, a manutenção de um lirismo pungente, carregado de certo tom humanista, pouco próximo de uma moral mais urbana. É uma geração que não se esgota nessa antologia, pois é na ação e pela ação que ela vai se definir: escrever e publicar.
De agora em diante, cabe a esses poetas continuar justamente isso: escrever e publicar, em uma época de transformações e instrumentos ao mesmo tempo tão estimulantes e ilusórios – blogues, twitters, e-books – assomando à vista. Seus desafios são os de como continuar criando e não estacionar nas imagens e ideias de sempre, como criar novos ritmos, formas, surpresas e sonhos estimulantes aos leitores, que continuam a existir, e aliás só aumentam com a internet. Engana-se quem pensa que os poetas só escrevem para si. O valor da poesia não é o valor da troca comercial, do bem de consumo, mas do bem simbólico que o leitor sente como um dom que lhe foi dado, bem que não se calcula e que por isso insistem em repetir que ninguém lê poesia. Poesia é cifra que passa de mão em mão. Senha. Código secreto, não para manter-se longe das mãos populares, mas para evitar cair nas mãos dos gigolôs. As pessoas continuam vivendo experiências que chamam de poéticas, tentando produzi-las e traduzi-las em coisas que chamam de poemas e lendo essas coisas escritas em busca de algum sentido diferente (poesia) para suas vidas. Justo por isso, antologias como esse Sangue novo devem ser saudadas.
segunda-feira, 24 de outubro de 2011
José Inácio Vieira de Melo entrevista Bernardo Almeida - "A poesia é uma fratura exposta"
UM CAMINHO NATURAL – BERNARDO ALMEIDA nasceu em Salvador (BA), no ano de 1981. Passou a infância em Recife, mudando-se para São Paulo na década de 1990. Em 2001, retornou à cidade natal, onde vive até o momento. É poeta, fotógrafo digital [desenvolve imagens artísticas sob o conceito da hibridez], escritor de contos, roteiros e tiras, compositor e livre pensador. Mantém o site http://www.bernardoalmeida.jor.br/, no qual expõe poesias, reflexões e imagens híbridas. Estreou em 2005 com dois livros, Achados e Perdidos/Crimes Noturnos (poesia) e Acorde Violento (contos). Participou das antologias poéticas Labirinto de espelhos (2007), Caderno Literário Impresso (2008), O Imaginário do Mar e do Navegador (2009), entre outros. Quando criança Bernardo Almeida escrevia seu nome em versos, portanto ser poeta foi um caminho natural. Vamos ver o que pensa o escritor fluido que sente a poesia como uma fratura exposta.
JOSÉ INÁCIO VIEIRA DE MELO – Para o poeta Schiller “a poesia é uma força divina e misteriosa, que age de maneira incompreendida”. E para você, o que é a poesia? E por que ser poeta? É algo imprescindível em sua vida?
BERNARDO ALMEIDA – Eu sinto a poesia como uma fratura exposta. É quando a pele rompe, o osso brota e o sangue jorra que enxergamos, de fato, o que há dentro de nós. É uma forma de autoconhecimento bastante impiedosa, apesar de eu não acreditar que a dor seja necessariamente a única fonte de inspiração de um poeta. É uma experiência sublime, bastante íntima, e, ao mesmo tempo, comum a todos – seja como criador, seja como leitor. No entanto, também acredito que a poesia possa ser o momento anterior a essa fratura, quando ainda não sabemos o que se esconde sob a pele e ficamos a imaginar.
Sobre ser poeta, acho que foi um caminho natural. Simplesmente, segui o fluxo e desemboquei nisso. Não consigo me enxergar apartado da poesia. Ser poeta muitas vezes incorre em baixas no campo de batalha da vida, mas isso não me intimida. Ao contrário, traz mais lenha à fogueira.
JIVM – Como a poesia chegou na sua vida? Lembra do primeiro livro de poesia que leu? E agora, qual livro está lendo? E quais são seus autores referenciais?
BA – Acredito que o meu primeiro contato com os versos aconteceu quando estava aprendendo a escrever o meu nome completo. Eu insistia em escrevê-lo versificado. Agora, livro de poesia, lembro-me de um, quando morava em Recife ainda na década de 1980, que trazia poesias de Manuel Bandeira, Drummond e Cecília Meireles. Mas, não recordo o título da obra.
No momento, estou lendo Poemas e Ensaios, de Edgard Allan Poe, Outono Transfigurado, de Georg Trakl, Ode ao Vento Oeste e Outros Poemas, de P. B. Shelley, além de alguns poemas de Nietzsche, em A Gaia Ciência. Estou terminando também a leitura de um livro do Marquês de Sade chamado “Escritos filosóficos e políticos” no qual achei uma poesia bastante interessante dele. Fora esses que citei, sempre mantenho no meu criado-mudo alguns autores, que são como companheiros de bar. No entanto, ficam ao lado da cama em forma de livro, e o máximo que chegam perto do álcool é através dos respingos da minha saliva ao ler em voz alta seus textos. São eles: Baudelaire, Bukowski, Pablo Neruda, Allen Ginsberg, Lawrence Ferlinghetti, Augusto dos Anjos, Genaro de Vasconcelos, Castro Alves, Antero de Quental... Ficam divididos em duas pilhas ao lado da cama junto com outros títulos em prosa. Tenho mania de ler vários livros ao mesmo tempo... Meus autores preferidos, para não cometer injustiças, são aqueles cujas obras ainda estão na minha biblioteca – seja física ou virtual (Rimbaud, Dylan Thomas, Maiakóvski, Leminski, Vinícius de Moraes, Walt Whitman, Fernando Pessoa, Sylvia Plath, Ediane do Monte, Leonard Cohen, Elizeu Moreira Paranaguá e mais uma galera).
JIVM – Como você analisa o cenário literário da Bahia? Principalmente de Salvador, que é a cidade em que você vive? E a população de Salvador tem conhecimento dos seus autores contemporâneos? Em caso negativo, o que poderia ser feito para que os poetas, e os escritores em geral, fossem mais lidos e, consequentemente, mais conhecidos e seus livros vendessem mais?
BA – Na Bahia, o cenário literário é bastante plural. Percebo que há muita gente escrevendo, mas não há estrutura editorial aqui. Então, boa parte do que se publica tem interferência do Estado, através dos editais. Acho importante a existência desse tipo de auxílio, mas o artista perde muito com essa vinculação, que representa um modelo bastante ultrapassado. A arte, para mim, teve um papel libertador. De acordo com esse ponto-de-vista, não compreendo como a associação de um escritor e sua obra com as estruturas governamentais de poder de uma sociedade possam contribuir para a manutenção desse caráter intrínseco à arte. Os artistas sempre estiveram do outro lado quando governos de direita e esquerda tentaram oprimir e desrespeitar ainda mais os direitos humanos.
A população de Salvador conhece pouco sobre quem são seus autores contemporâneos. De uma forma geral, para um número significativo de pessoas, tivemos apenas Castro Alves, Gregório de Matos, Jorge Amado e João Ubaldo Ribeiro. Talvez eu esteja exagerando. No entanto, isso não reflete o grau de interesse das pessoas daqui pela literatura, que é razoável para um País como o nosso - repleto de analfabetos.
Acredito que se os educadores tivessem mais interesse pela literatura, sobretudo pela poesia, teríamos um número maior de apreciadores. Acho também que o formato dos eventos literários precisa mudar. Infelizmente, tudo o que não tem cara de shopping center, tudo o que não envolve espetacularização, atrai menos público nos dias atuais. No final de dezembro, fui a um evento de literatura no Teatro Castro Alves que fazia dó. A platéia era composta basicamente pelos expositores.
JIVM – Qual a contribuição que as novas tecnologias trouxeram para literatura? E o livro, está com seus dias contados? Um novo suporte mais prático poderá aumentar o número de leitores?
BA – As novas tecnologias facilitaram a disseminação de obras e autores de uma maneira fantástica. É um canal de comunicação poderoso, sobretudo para escritores independentes. Quando liberei gratuitamente no meu site (www.bernardoalmeida.jor.br) dois arquivos de poesia, Achados e Perdidos e Crimes Noturnos, não imaginava que chegaria em 2010 com mais de 20 mil downloads. A internet nos tornou menos reféns de editoras. Penso que os leitores de e-books têm tudo para se popularizarem no Brasil, e isso vai espelhar o interesse dessa nova geração pela leitura. No entanto, não acredito que o livro esteja com os dias contados. Talvez, o formato livro, em alguns casos, sim. Vejo muitas pessoas baixando e-books, gratuitos ou pagos, e imprimindo eles depois. Por outro lado, eu mesmo tenho muitos e-books no computador os quais comprei, posteriormente, uma cópia em papel. Dá para conviver sem que o autor sofra com isso. Na verdade, ele só tem a ganhar porque cada formato está ligado a um tipo de público. Então, o que acontece é uma adequação para que mais pessoas possam ter acesso a obras literárias.
JIVM – E o que mais? Quais projetos? Já pensa em publicar o primeiro livro?
BA – Na verdade, eu já publiquei um primeiro livro, mas foi de maneira independente. Depois, quando vendi os exemplares em papel, distribui os arquivos gratuitamente na web. Penso em publicar outro livro em papel, sim. Ainda em 2011. O que não falta é poesia, mas vida de sagitariano não é muito ordenada – são as paixões, antes dos planos, que nos guiam.
http://jivmcavaleirodefogo.blogspot.com/2011/01/sangue-novo-bernardo-almeida.html
domingo, 23 de outubro de 2011
quinta-feira, 20 de outubro de 2011
"Morar na Arte" - Exposição de Ediane do Monte
Ediane do Monte, já consagrada fotógrafa e artista plástica, com devaneios bissextos na poesia, está para inaugurar, na sexta vindoura, 21 de outubro, às 19 horas, no salão de festas do Edifício Eldorado, onde a artista se esconde dos males do mundo, isto quer dizer, mora no mesmo prédio, a exposição Morar na Arte composta de 17 fotografias impressas em papéis e totalmente dedicada aos moradores do edifício, que tem, em sua arquitetura, características especiais e assombra, por vezes, com suas linhas tortuosas. De arquitetura modernista, o Eldorado foi criado pelo arquiteto Eduardo Cerqueira Pinto, e inaugurado em 1955, um edifício especial para história da arquitetura. Quem perder a vernissage, pode visitar a exposição entre os dias 22 e 23 das 16 às 20 horas.
Contato: Ediane do Monte
Atelier Frida Kahlo II
Tel. 33322123 ou 82029821
Read more: http://clippingsetaro.blogspot.com/#ixzz1bNQbMsI0
sexta-feira, 14 de outubro de 2011
Rafinha Bastos: quando o bufão vira vilão
Rafinha Bastos: quando o bufão vira vilão
A recente suspensão do comediante Rafinha Bastos do CQC, programa que apresentava junto com Marcelo Tas e tantos outros ‘colegas’ na Bandeirantes, expõe a frágil liberdade de imprensa e de expressão que temos no Brasil de hoje. Liberdade, sim, mas sempre subordinada. E, portanto, subestimada e constrangida.
No mínimo, o caso expõe algo grave. E, ao mesmo tempo, banal, uma vez que faz parte do cotidiano dos bastidores de jornais impressos e virtuais, canais de televisão e emissoras de rádio: o controle. E não precisamos mais de um regime ditatorial e antidemocrático autêntico para exercer essa função, nem de religiões ou mesmo de organizações sociais conservadoras como a TFP.
Temos as megaempresas e seus agentes publicitários para disseminar o barulho entorpecedor de suas banalidades. Ou promover um silêncio generalizado e providencial. Para definir e estimular a produção do ‘melhor conteúdo’. Para combinar entretenimento - há quem chame de cultura - e consumo.
Para controlar o que você deve ler, ver e ouvir, baseando-se no que apostam ser aquilo que todas as pessoas têm condições de ler, ver e ouvir sem se sentirem ‘ofendidas’. E mais: determinar o que você tem permissão para falar – se for contratado para fazer parte do circo, como Rafinha Bastos.
Apesar de jactarem-se em discurso contrário, negando as restrições ao ofício, a censura ainda existe. Atualmente, de maneira mais perversa. Ela é silenciosa e amorfa. Não tem partido, mas representa a quase todos com sua moral de presépio. E tem o poder de matar uma pessoa sem tirar dela o direito de continuar viva.
Penso que, diferentemente do que foi sugerido implicitamente no noticiário, o pivô dessa história não é o comediante Bastos, mas o ex-jogador de futebol que se intrometeu na situação. Se ele não contatasse a emissora ameaçando retaliá-la comercialmente caso o humorista não fosse punido, nada iria acontecer a Rafinha além do habitual: responder processos na Justiça. E bastaria. Os incomodados que se interponham.
Mas a piada estabeleceu uma polêmica e foi promovida a escândalo com a interferência do ex-craque. O que Ronaldo fez em seu sobressalto impulsivo foi apenas mostrar a dinâmica da relação entre veículos de comunicação e as empresas anunciantes: subserviência editorial quase plena. Prostituição. Para os mais contidos, casamento entre conteúdo e propaganda, sendo o segundo mais importante que o primeiro. Ou seja, interesse público abaixo dos interesses comerciais de todos os envolvidos no negócio. Melhor: farsa e fraude.
Tudo bem. O que se pode esperar? O CQC e seus integrantes sempre assumiram uma postura de bajuladores da presidência da República, a chefia máxima do Executivo nacional. Mas, de empresas? Também. Ainda, de acordo com o que foi veiculado, para exibir um comercial de trinta segundos no programa custa R$ 130 mil. Ações de merchandising podem atingir a casa dos R$ 2,4 milhões.
Enquanto o comediante Rafinha Bastos foi um bom boneco de ventríloquo e multiplicava as vendas das empresas que nele tatuavam seus emblemas, suas marcas, ele era um ídolo comercial. Um prodígio. Agora, quando começa a querer ganhar independência em nome de sua ‘arte’, é transformado em monstro e banido da farra.
Então, o que vi foi a censura ‘mal feita’ - porque vazou – se impor, resultando na repercussão exagerada de um comentário medíocre. E que não oferece qualquer ‘risco’ à segurança das hordas de hipócritas moralizadores que fazem a cabeça de muitos brasileiros.
A liberdade, mesmo em forma de piada, custa caro. Rafinha Bastos testou os limites do seu quinhão e foi punido por isso. Ficou evidenciado aí que o humorista foi castigado por ‘transgredir’ um direito – se é que isso é possível – e não por violar uma lei. O conteúdo da mensagem não importa. Defendo o direito de qualquer um expressar o que quer que queira. Custe o que custar.
E foi um simples ex-jogador de futebol, metido a empresário de comunicação, que agiu tal qual um Hugo Chávez. Mas, convenhamos, ele é despreparado para assuntos como esses. Foi um dos maiores ídolos da nação, é bem verdade. Mas, não passou de um jogador de futebol.
Agora, sem clube para defender e sem pernas que valham milhões por possibilidades de chutes ao gol, resolve atacar de censor. A aposentadoria tem dessas coisas.
Porra, Brasil, dá um tempo! Uma sociedade que não reage e nem se revolta com a corrupção dos seus representantes políticos senão com atos previsíveis e, por isso mesmo, ineficazes, escandalizar-se com uma piada proferida por um personagem midiático? Um personagem de circo? Mau sinal. Há algo de fétido nesse Brasil-sil-sil-silêncio.
Em minha opinião, piada que pega mal é censura. Que, além de ser uma atitude estúpida, é inconstitucional.
Bernardo Almeida
quarta-feira, 30 de março de 2011
Para alguém que se foi com a mesma idade que eu... (Bernardo Almeida)
Imagem: Entre dois mundos - Bernardo Almeida
Para alguém que se foi com a mesma idade que eu...
Ir tão cedo
E ainda logo
Ressurgir
Na lembrança agridoce
De quem ficou
Ao chão
Lágrimas
Tantas foram
Mas nenhuma pôde apagar a chama
Na cremação
Pó é poeira – e se dispersa
Para além da sua juventude
Agora eterna
Espalhada pelos quatro cantos
É brasa e queima entre dois mundos
Passaste
É tarde demais
E não deu tempo
Para quase nada...
sábado, 26 de março de 2011
Bruna Surfistinha (o filme) O Veneno do Escorpião - Por Bernardo Almeida (Poesia)
Nessa onda do filme ainda nasceu uma poesia...
How insensitive – a poesia da boceta (assistindo Bruna Surfistinha)
Imagem: O falo - Bernardo Almeida
A boceta
É bem
Vedada
Mas
Dada
Ou paga
É viagem concretizada
É obrigado
E volte sempre
Nada mais
Menos, nem
Tampouco
Nada!
É boceta – um buraco
E foda-se!
Cambada
Bernardo Almeida
www.bernardoalmeida.jor.br
How insensitive – a poesia da boceta (assistindo Bruna Surfistinha)
Imagem: O falo - Bernardo Almeida
A boceta
É bem
Vedada
Mas
Dada
Ou paga
É viagem concretizada
É obrigado
E volte sempre
Nada mais
Menos, nem
Tampouco
Nada!
É boceta – um buraco
E foda-se!
Cambada
Bernardo Almeida
www.bernardoalmeida.jor.br
sexta-feira, 25 de março de 2011
Bruna Surfistinha (o filme) O Veneno do Escorpião - Por Bernardo Almeida
Alguns filmes nacionais têm me surpreendido. Um deles foi Bruna Surfistinha. Não por aspectos técnicos e lingüísticos, em relação à cinematografia. Mas à qualidade estética e textual da película. Acho que atriz (Deborah Secco) se esforçou para se superar, e atingiu seu maior papel na carreira.
Bom afirmar que não consegui passar das 40 folhas de papel do livro. Muito ruim. Sério. Primeira vez que digo isso sobre uma “adaptação”.
Acho que a Raquel Pacheco, apesar de tudo, e, sobretudo, foi uma batalhadora, ao seu modo – uma mulher corajosa que se expôs em todos os sentidos. Estou sempre ao lado das melhores mulheres. Sou um apaixonado por elas. São o máximo – não importa o que façam. É um grande filme destinado a olhares menos preconceituosos – contém atrizes globais.
Mas não é um filme global. Talvez tenha gostado tanto por ter tido a oportunidade de conhecer de perto e admirar a vida dessas mulheres que trabalham com o sexo. Então, serei suspeito. E isso não é verdade.
Precisamos humanizar e aprender a compreender mais as peculiaridades de cada ser – e da sua necessidade como humano. É um filme raso (para quem o procura) e profundo (para quem o descobre). É um péssimo filme pornográfico para o masturbador. Talvez não seja tão ruim para o existencialista. Mas merece o clichê francês “c´est la vie”. Não vai e nem deve agradar a todos - no melhor e no pior sentido... E quem quiser que conte e crie outra história.
sexta-feira, 11 de março de 2011
Devoção - Bernardo Almeida
(Imagem: Devocificado - Bernardo Almeida)
Devoção
Se com mil toques pudesse agraciar a sua beleza
Se com mil palavras pudesse definir suas curvas
Se com mil passos pudesse percorrer entre seus mistérios
Se entre mil pessoas o seu olhar fosse somente meu
Se com mil orgasmos pudesse presenteá-la
Se de mil paixões pudesse abastar seu peito
Se mil amores eu pudesse renunciar
Se com mil sons, pudesse cantar sua carne
Se ao meu amor terno estivesse tu entregue
Beberia mil jarras do seu sorriso
Se em mil versos pudesse ler a sua alma
Se em mil encarnações pudesse entregar-lhe a minha
Se com mil destinos tivesse escolha
Minha rota seria seu caminho
Se em mil sonhos, apenas você
Se em mil sensações, suas mãos
Se em mil delírios, seus lábios
Se em mil crenças, devoção a você
Se em mil desejos, suas fantasias a realizar
Se em mil perfumes, seu aroma
Se em mil tentações, a sua presença
Que inebria e irradia vida
Que ilumina e salva
Desperta e liberta
Amém, amém!
Crença e aparência - Bernardo Almeida
(Imagem: A invenção do abismo - Bernardo Almeida)
Crença e aparência
Quem crê no amor e nunca chorou
Dificilmente amou
Quem crê no amor e nunca sofreu
Dificilmente amou
Quem crê no amor e nunca perdoou
Dificilmente amou
Mas quem ainda crê no amor?
O amor foi reduzido a desejo
Passageiro, ligeiro
Um sem número de parceiros
Companheirismo é piegas
Amar alguém é tão brega
A sinceridade está de braços cruzados
A cumplicidade tirou férias
E o compromisso se aposentou
Mas quem ainda crê no amor?
Livre de interesses materiais
Repleto de saudades e lembranças
Os corações estão trancados
Protegidos contra danos
Todo mundo é tão sério e prudente
Falta coragem para amar
É mais fácil possuir do que se entregar
Mas quem ainda crê no amor romântico?
O que era sentimento verdadeiro
Não passa hoje de um jogo entre parceiros
A morte já não separa os casais
O amor morre muito antes
O vinho é transformado em água
Sem sabor, gosto ou cheiro
Sem emoções e sem feições
Quem veio ao mundo e nunca amou
Falar sobre a vida não pode
Porque nada sabe
Porque nada aprendeu além de futilidades
Porque nada sentiu além do trivial
Porque nada entendeu além do óbvio
Porque, ainda que vivo, nunca viveu
(Bernardo Almeida - Achados e Perdidos - 2005)
domingo, 27 de fevereiro de 2011
Augusta - Bernardo Almeida
Augusta
A avenida é paulista
Mas os pedestres
São de todos os lugares
Cruzam-se, debatem-se e ignoram-se
Em buzinas de sirenes de ambulâncias de polícias
E, do alto, a dupla hélice metálica
Dos helicópteros alternam-se e assistem
Ao drama do cotidiano
Cada vida é uma remessa de jornal encalhado
Um relógio adiantado
Em um braço sempre atrasado
Nas esquinas urbanas, afeto é silêncio
E respeito é indiferença
No escritório, a ansiedade
Espera pelo happy hour do dia
“Talvez amanhã, quem sabe...”
Oitenta leões e uma forca
O dinheiro é o marca-passo
E a apatia é conivente com a bravura
No espaço em que a convivência
É um ato de loucura
Há arte no teto
Um painel em tons de cinza
Anuncia qualquer coisa indefinida
Uma chuva ácida de melancolia cosmopolita
Mas não sobra tempo para detalhes
E cada um é só, mais uma triste interrogação
Que tenta ganhar a vida
Em um dia de um segundo
Numa extraordinária correria comum
Enquanto os monumentos observam estáticos
A genérica beleza da arquitetura humana
Projetada e talhada em concreto e carne
Marcando no mapa as luzes esfumaçadas
De uma ilha de calor carcinogênico
No espetáculo diário dos artistas dos semáforos
E na esmola dada por compensação
O progresso que conheces não tem nome
Malmente aprendeu a ler
Mas é pós-doutor em cálculos de estatística
E cedo ou tarde
Inevitavelmente irá subtrair você
Bernardo Almeida
A avenida é paulista
Mas os pedestres
São de todos os lugares
Cruzam-se, debatem-se e ignoram-se
Em buzinas de sirenes de ambulâncias de polícias
E, do alto, a dupla hélice metálica
Dos helicópteros alternam-se e assistem
Ao drama do cotidiano
Cada vida é uma remessa de jornal encalhado
Um relógio adiantado
Em um braço sempre atrasado
Nas esquinas urbanas, afeto é silêncio
E respeito é indiferença
No escritório, a ansiedade
Espera pelo happy hour do dia
“Talvez amanhã, quem sabe...”
Oitenta leões e uma forca
O dinheiro é o marca-passo
E a apatia é conivente com a bravura
No espaço em que a convivência
É um ato de loucura
Há arte no teto
Um painel em tons de cinza
Anuncia qualquer coisa indefinida
Uma chuva ácida de melancolia cosmopolita
Mas não sobra tempo para detalhes
E cada um é só, mais uma triste interrogação
Que tenta ganhar a vida
Em um dia de um segundo
Numa extraordinária correria comum
Enquanto os monumentos observam estáticos
A genérica beleza da arquitetura humana
Projetada e talhada em concreto e carne
Marcando no mapa as luzes esfumaçadas
De uma ilha de calor carcinogênico
No espetáculo diário dos artistas dos semáforos
E na esmola dada por compensação
O progresso que conheces não tem nome
Malmente aprendeu a ler
Mas é pós-doutor em cálculos de estatística
E cedo ou tarde
Inevitavelmente irá subtrair você
Bernardo Almeida
Bilheteria - Bernardo Almeida
Bilheteria
Ao deixar-me, ainda em chamas
A tua presença não me abandona
E as palavras que proferes, agora saem de mim
Derivam todas da mesma harmoniosa fonte
Perdura em meu corpo a tua saliva
Restos de ti a completar-me
Como as migalhas da minha carne
Que levas em tuas longilíneas unhas
O deleite ainda umedece os lençóis
Emaranhados no palco armado sobre quatro estacas
Em que o teu amor contracenou com o meu
Diante de uma platéia invisível, que calorosamente aplaudia
Enquanto nossos músculos, pulmões e gargantas
Exaustos, agradeciam
Bernardo Almeida
Ao deixar-me, ainda em chamas
A tua presença não me abandona
E as palavras que proferes, agora saem de mim
Derivam todas da mesma harmoniosa fonte
Perdura em meu corpo a tua saliva
Restos de ti a completar-me
Como as migalhas da minha carne
Que levas em tuas longilíneas unhas
O deleite ainda umedece os lençóis
Emaranhados no palco armado sobre quatro estacas
Em que o teu amor contracenou com o meu
Diante de uma platéia invisível, que calorosamente aplaudia
Enquanto nossos músculos, pulmões e gargantas
Exaustos, agradeciam
Bernardo Almeida
Crença e aparência - Bernardo Almeida
Crença e aparência
Quem crê no amor e nunca chorou
Dificilmente amou
Quem crê no amor e nunca sofreu
Dificilmente amou
Quem crê no amor e nunca perdoou
Dificilmente amou
Mas quem ainda crê no amor?
O amor foi reduzido a desejo
Passageiro, ligeiro
Um sem número de parceiros
Companheirismo é piegas
Amar alguém é tão brega
A sinceridade está de braços cruzados
A cumplicidade tirou férias
E o compromisso se aposentou
Mas quem ainda crê no amor?
Livre de interesses materiais
Repleto de saudades e lembranças
Os corações estão trancados
Protegidos contra danos
Todo mundo é tão sério e prudente
Falta coragem para amar
É mais fácil possuir do que se entregar
Mas quem ainda crê no amor romântico?
O que era sentimento verdadeiro
Não passa hoje de um jogo entre parceiros
A morte já não separa os casais
O amor morre muito antes
O vinho é transformado em água
Sem sabor, gosto ou cheiro
Sem emoções e sem feições
Quem veio ao mundo e nunca amou
Falar sobre a vida não pode
Porque nada sabe
Porque nada aprendeu além de futilidades
Porque nada sentiu além do trivial
Porque nada entendeu além do óbvio
Porque, ainda que vivo, nunca viveu
Bernardo Almeida
Quem crê no amor e nunca chorou
Dificilmente amou
Quem crê no amor e nunca sofreu
Dificilmente amou
Quem crê no amor e nunca perdoou
Dificilmente amou
Mas quem ainda crê no amor?
O amor foi reduzido a desejo
Passageiro, ligeiro
Um sem número de parceiros
Companheirismo é piegas
Amar alguém é tão brega
A sinceridade está de braços cruzados
A cumplicidade tirou férias
E o compromisso se aposentou
Mas quem ainda crê no amor?
Livre de interesses materiais
Repleto de saudades e lembranças
Os corações estão trancados
Protegidos contra danos
Todo mundo é tão sério e prudente
Falta coragem para amar
É mais fácil possuir do que se entregar
Mas quem ainda crê no amor romântico?
O que era sentimento verdadeiro
Não passa hoje de um jogo entre parceiros
A morte já não separa os casais
O amor morre muito antes
O vinho é transformado em água
Sem sabor, gosto ou cheiro
Sem emoções e sem feições
Quem veio ao mundo e nunca amou
Falar sobre a vida não pode
Porque nada sabe
Porque nada aprendeu além de futilidades
Porque nada sentiu além do trivial
Porque nada entendeu além do óbvio
Porque, ainda que vivo, nunca viveu
Bernardo Almeida
Palavra - Bernardo Almeida
Palavra
Uma palavra pode ser proferida
E esquecida com o tempo
Outra pode ser aquecida e sentida
Além da eternidade
Uma palavra pode ser mantida
Pode ser vencida
Pode ser transformada
Pode ser omitida
Pode ser deturpada
Pode ser lembrada
Uma palavra
Afasta o homem da ignorância
Aponta a saída do labirinto
Fantasiosa ou realista
Carrega vida em seu sentido
Uma palavra
Quando lançada
Não tem rumo
Não tem caminho certo
Trilha ao impulso do vento
E na velocidade do pensamento
Segue firme, vaga e veloz
Como uma flecha
Pode destronar uma certeza
E como uma chama
Pode transformar corações em brasa
Uma palavra
Simples e inútil
Pode mudar o mundo
Pode ultrapassar uma crença
Pode desatar nós e preconceitos
Pode vencer uma guerra
Aquela mesma palavra
Esquecida em meio a tantas outras
Na página amarelada de um livro qualquer
Pode ser a salvação
Ou a perdição
Na vida de alguém
Uma simples e imperfeita
Palavra
Bernardo Almeida
Uma palavra pode ser proferida
E esquecida com o tempo
Outra pode ser aquecida e sentida
Além da eternidade
Uma palavra pode ser mantida
Pode ser vencida
Pode ser transformada
Pode ser omitida
Pode ser deturpada
Pode ser lembrada
Uma palavra
Afasta o homem da ignorância
Aponta a saída do labirinto
Fantasiosa ou realista
Carrega vida em seu sentido
Uma palavra
Quando lançada
Não tem rumo
Não tem caminho certo
Trilha ao impulso do vento
E na velocidade do pensamento
Segue firme, vaga e veloz
Como uma flecha
Pode destronar uma certeza
E como uma chama
Pode transformar corações em brasa
Uma palavra
Simples e inútil
Pode mudar o mundo
Pode ultrapassar uma crença
Pode desatar nós e preconceitos
Pode vencer uma guerra
Aquela mesma palavra
Esquecida em meio a tantas outras
Na página amarelada de um livro qualquer
Pode ser a salvação
Ou a perdição
Na vida de alguém
Uma simples e imperfeita
Palavra
Bernardo Almeida
domingo, 13 de fevereiro de 2011
Carne, osso e memórias - Bernardo Almeida
(Imagem Galo Imaginário / Autor: Bernardo Almeida)
Carne, osso e memórias - Bernardo Almeida
Diluiu em pecados
O que um dia foi santo
Sacrificado o eterno em prol do agora
Mundano e estreito
Externo e profano
Corpo exposto
Alma fraca
Lágrimas e silêncios
Novos prantos
Gritos de sinceridade
Uma história mal contada
Difícil de decifrar
Um passado de fugas
Um presente omisso
Você não se reconhece
Nem que apodreça em frente ao espelho
Admire suas falhas
Bem de perto, profundamente
Você ainda consegue se questionar sem se sentir vazio?
Anos luz separam você de você mesmo
E não há nada além disso
Carne, osso e memórias
Bernardo Almeida (Achados e Perdidos - 2005)
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Devoção - Bernardo Almeida
Devoção
Se com mil toques pudesse agraciar a sua beleza
Se com mil palavras pudesse definir suas curvas
Se com mil passos pudesse percorrer entre seus mistérios
Se entre mil pessoas o seu olhar fosse somente meu
Se com mil orgasmos pudesse presenteá-la
Se de mil paixões pudesse abastar seu peito
Se mil amores eu pudesse renunciar
Se com mil sons, pudesse cantar sua carne
Se ao meu amor terno estivesse tu entregue
Beberia mil jarras do seu sorriso
Fôssemos
Se em mil versos pudesse ler a sua alma
Se em mil encarnações pudesse entregar-lhe a minha
Se com mil destinos tivesse escolha
Minha rota seria seu caminho
Se em mil sonhos, apenas você
Se em mil sensações, suas mãos
Se em mil delírios, seus lábios
Se em mil crenças, devoção a você
Se em mil desejos, suas fantasias a realizar
Se em mil perfumes, seu aroma
Se em mil tentações, a sua presença
Que inebria e irradia vida
Que ilumina e salva
Desperta e liberta
Amém, amém!
Bernardo Almeida (Achados e Perdidos)
Se com mil toques pudesse agraciar a sua beleza
Se com mil palavras pudesse definir suas curvas
Se com mil passos pudesse percorrer entre seus mistérios
Se entre mil pessoas o seu olhar fosse somente meu
Se com mil orgasmos pudesse presenteá-la
Se de mil paixões pudesse abastar seu peito
Se mil amores eu pudesse renunciar
Se com mil sons, pudesse cantar sua carne
Se ao meu amor terno estivesse tu entregue
Beberia mil jarras do seu sorriso
Fôssemos
Se em mil versos pudesse ler a sua alma
Se em mil encarnações pudesse entregar-lhe a minha
Se com mil destinos tivesse escolha
Minha rota seria seu caminho
Se em mil sonhos, apenas você
Se em mil sensações, suas mãos
Se em mil delírios, seus lábios
Se em mil crenças, devoção a você
Se em mil desejos, suas fantasias a realizar
Se em mil perfumes, seu aroma
Se em mil tentações, a sua presença
Que inebria e irradia vida
Que ilumina e salva
Desperta e liberta
Amém, amém!
Bernardo Almeida (Achados e Perdidos)
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terça-feira, 8 de fevereiro de 2011
Da vaidade - Bernardo Almeida
Brilhantismo
É um colar de contas
Ridículo
Mas está
Na moda
Bernardo Almeida
É um colar de contas
Ridículo
Mas está
Na moda
Bernardo Almeida
Avenue B - Iggy Pop
Rapper standing on the corner
Wrappers flying in the wind
Waitress up from Alabama
Can't believe the cold she's in
And me, I'm sitting in my castle
On the verge of a divorce
And if I haven't got a hassle
I'll create my own, of course
Still I gotta live with my feelings
But I know about science too
And fame and death and money
And what they do to you
And I am gonna need a miracle
I am gonna need a miracle
I am gonna need a miracle
Tonight on Avenue B
I bought about a hundred candles
I'm burnin' em both night and day
I'm sleepin' when I should be eatin'
Cryin' when I should be gay
My girlfriend's warm and loves me
She's knockin' but she can't get in
I'm a product of the paranoia
Of the age I'm in
And I am gonna need a miracle
I'm really gonna need a miracle
I'm really gonna need a miracle
Tonight on Avenue B
I see the students out my window
They're walking in their student clothes
Eatin' books and information
To make their understanding grow
But this much I understand
It's hard to be an empty man
But since I gave `em every part of me
I ain't free
And I am gonna need a miracle
I am gonna need a miracle
I am gonna need a miracle
Tonight on Avenue B
I am gonna need a miracle
I am gonna need a miracle
I am gonna need a miracle
Tonight on Avenue B
Inalado pelo silêncio que em outros tempos era apenas a veste do acaso
Acordar para ver a Lua brotar desprotegida, como eu ao seu lado – instável. Inalado pelo silêncio que em outros tempos era apenas a veste do acaso.
segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011
O poeta não pode anoitecer antes do dia chegar!
Não pode! Mesmo o poeta que tudo acha. E se perde achando que tudo pode. Ele não vai poder, perdido - como está. O poeta não pode anoitecer antes do dia chegar!
Geração exonerada - Bernardo Almeida
Geração exonerada
Na distinção entre um sorriso e uma lágrima
Pende para o absurdo desejo da catástrofe
Uma pavorosa mania não mais possível
De ser expressa por meio de gestos calculados
Os movimentos, seqüencialmente imperceptíveis,
Protegem o esquecimento que tomará conta da sua alma
Descarnada, desnuda, etérea, imaterial
Dilacerada e agredida como cada milímetro da sua ossada
Escondes este peso em um jazigo distante
Onde apenas olhares mortos te alcançam
Colabora com a terra que fornece a colheita
Da qual tanto te beneficiaste em vida
Colha agora a raiz, e deixa o fruto para os que restam
Contentas-te com a jaula em que te encerras
Sem praguejar contra o fardo que te aflige
O teu rastro, em breve, será apagado
Para que as novas gerações sejam mais belas e ternas
Menos hipócrita, sujismunda, atávica e apática
Como as guardas, os punhos, os corações e as lanças
Dessa tacanha representação da realidade humana
Bernardo Almeida
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