segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

Alquimia na quitanda - Ferreira Gullar

Alquimia na quitanda


29/12/2013 - 03h00

Pode ser que, no final das contas, isso que vou dizer aqui não interesse a ninguém, mas é que, numa crônica em que falava das poucas coisas que lembro, esqueci de mencionar uma das que mais me lembro: as bananas que, às vezes, ficavam sem vender e apodreciam na quitanda de meu pai.

Aliás, se bem me lembro, não era na quitanda dele e, sim, na de uma mulata gorda e simpática que, na rua de trás, vendia frutas: bananas, goiabas, tamarindo, atas, bagos de jaca e manga-rosa. Mas o que é verdade ou não, neste caso, pouco importa, porque o que vale é o momento lembrado (ou inventado) em que as bananas apodrecem. E mais que as bananas, o que importava mesmo era seu apodrecer, talvez porque o que conta, de fato, é que ele se torna poesia.

Essas bananas me vieram à lembrança quando escrevi o "Poema Sujo". Jamais havia pensado nelas ao longo daqueles últimos 30 anos. Mas, de repente, ao falar da quitanda de meu pai, me vieram à lembrança as bananas que, certo dia, vi dentro de um cesto, sobre o qual voejavam moscas varejeiras, zunindo.

Haverá coisa mais banal que bananas apodrecendo dentro de um cesto, certa tarde, na rua das Hortas, em São Luís do Maranhão? Pois é, não obstante entrei naquele barato e vi aquelas frutas enegrecidas pelo apodrecer, um fato fulgurante, quase cósmico, se se compara o chorume que pingava das frutas podres ao processo geral que muda as coisas, que faz da vida morte e vice-versa.

E essas bananas outras -não as da quitanda, mas as do poema- inseriram-se em mim, integraram-se em minha memória, em minha carne, de tal modo que são agora parte do que sou.

Agora, se tivesse de dizer quem sou eu, diria que uma parte de mim são agora essas bananas que, no podre dourado da fantasia, me iluminaram, naquela tarde em Buenos Aires, inesperadamente, tornando-me dourados os olhos, as mãos, a pele de meu braço.

Entenderam agora por que costumo dizer que a arte não revela a realidade e, sim, a inventa? Pois é, as bananas de dona Margarida, apodrecendo num cesto, numa quitanda em São Luís -e que ela depois, se não as vendesse, as jogaria no lixo-, ganharam outra dimensão, outro significado nas palavras do poema e na existência do seu autor. Porque a banana real é pouca, já que a gente a torna mais rica de significados e beleza.

Veja bem, não é que a banana real não tenha ela mesma seu mistério, sua insondável significação. Tem, mas, embora tendo, não nos basta, porque nós, seres humanos, queremos sempre mais. Ou seria esse um modo de escapar da realidade inexplicável?
Se pensamos bem, a banana inventada pertence ao mundo humano, é mais nós do que a banana real. E não só isso: a realidade mesma é impermeável, enquanto a outra, feita de palavras, amolda-se a nossa irreparável insatisfação com o real.

Depois que as bananas podres surgiram no "Poema Sujo", numa situação de fato inventada por mim, e mais verdadeira que a verdadeira, incorporaram-se à memória do vivido, de modo que, mais tarde, elas voltaram, não como invenção poética, mas como parte da vida efetivamente vivida por mim.

Sim, porque criar um poema é viver e viver mais intensamente que no correr dos dias. Por isso, como se tornaram vida vivida, me fizeram escrever outros poemas, já que a memória inventada se junta à experiência real, quando novos momentos também se tornarão memória. Até esgotarem-se, e se esgotam.

Do mesmo modo que não sei explicar como a lembrança das bananas apodrecidas na rua das Hortas voltou inesperadamente naquela dia em Buenos Aires, nem por que, depois de cinco reincidências, a lembrança das bananas cessou, apagou-se, nenhum poema mais nasceu daquela experiência banal, vivida por um menino de uns dez anos de idade sob o calor do versão maranhense.

Foi o que pensei, mas o assunto não morrera. Ao ver uma folha de jornal suja de tinta, onde limpava os pincéis, pareceu-me ser a mesma cor das bananas podres. Recortei o papel em forma de bananas e fiz uma colagem. Logo me veio a ideia de fazer outras para ilustrar os poemas sobre elas. E disso resultou um livro de colagens, com os poemas que preferi escrever a mão.

sábado, 28 de dezembro de 2013

Elizeu Moreira Paranaguá recita poema inédito na XI Bienal Internacional do Livro da Bahia


Elizeu Moreira Paranaguá recita o poema inédito "O mundo aos 50", ao som de Vandex, na XI Bienal Internacional do Livro da Bahia, em novembro de 2013. Ao lado dele, apresentaram-se José Inácio Vieira de Melo e Rita Santana. Na plateia, amigos como Antonio Carlos Barreto, Jotacê Freitas, Douglas de Almeida, Franklin Maxado, Cleberton Santos e Bernardo Almeida, além de outros admiradores.

O MUNDO AOS 50
(Elizeu Moreira Paranaguá)

"Surge a manhã de um novo ano"
Carlos Drummond de Andrade

Tenho 50 anos,
não tenho 50 coisas.
Tenho 50 anos,
não tenho 50 coisas

O tempo e o espelho respondem ao homem
que tem dobras no rosto.

O mundo desperta o sentido para a vida
porque a vida não conhece outra forma
para viver
senão viver.

O mundo move o fogo
e um falso amor.

A existência fica diante do Caos
onde o sol ultrapassa o vulcão
que corta o Dragão da Morte.

A luz define o mundo
onde o céu e o inferno
medem forças.

A luz que é a força da alma
possibilita ondas de esperança.
A luz que desfaz o abismo de trevas
é a mesma que me renova na espuma.

Sei que estou envelhecendo
como uma árvore
que faz sombra no profundo
como o planeta
que curte o estilo natural do Desconhecido
como a pedra
que está no espelho
do filho Velho.

Sei que o tempo
atiça uma dor absurda
e atinge o corpo
os cabelos
e os olhos de jovem autênticos.

O que posso dizer
dos meus 50 anos ?

O que posso dizer
dos tesouros e sonhos
da juventude?

Tudo tem o peso da idade.
Tudo tem o tempo da medida.
Tudo tem a marca do limite.
Tudo tem a razão da vida.
Tudo tem a dança do Destino.

O tempo não envelhece o espírito
no ensino pelo caminho da Arte.

A Arte sustenta seres para a vida
onde a máquina do Mistério
investe contra o inferno.

Elizeu Moreira Paranaguá

Volúpia Errante - Bernardo Almeida na XI Bienal Internacional do Livro da Bahia

Bernardo Almeida lê os versos do poema Volúpia Errante na XI Bienal Internacional do Livro, ao lado dos poetas Vânia Melo e Ivan Almeida.





Volúpia errante 


Navegar é ir de encontro 

Ao som inaudito do verso 

Ainda a ser concebido 

É uma tara, um manifesto 

Contra a homofonia 

De tudo que já está mapeado 

Visto, lido e digerido 

É partir em busca de si próprio 

Lançando-se ao desconhecido 

Sob o risco de encontrar-se 

Emaranhado nas rédeas soltas pela loucura 

Lendas, mitos e estrofes – o mar a desferir golpes 

Para o navegante não triunfar 

Inconsequência, eis a arrogância do desbravador 

Ah! A pequenez de governar 

Deixo aos monarcas de todas as eras 

Corruptos, medíocres, medrosos 

Dos tronos, escravos irreparáveis 

Eu quero é desbravar! 

Entrar para a história por uma outra porta 

Que já existia, mas estava oculta 

Até antes de eu chegar 

Bernardo Almeida

www.bernardoalmeida.jor.br